Editorial JC: Respeito à democracia
Posse do novo presidente chileno não precisa ser motivo de afastamento entre os governos, atrapalhando os laços entre as duas nações
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A polarização política interna não deve ser a guia das relações de um país com outros países, por mais que haja inclinações ideológicas evidentes para um lado ou outro, especialmente em disputas que se avizinham no horizonte das urnas. Até porque existem agendas a serem cumpridas, ritos a serem respeitados, protocolos e metas, observados, que extrapolam a natureza ou o prazo de um mandato de governo.
No caso do Chile, que hoje dá posse a seu novo presidente, espera-se que as relações com o Brasil sejam mantidas ativas, sem a perturbação de campanhas eleitorais prematuras, enviesadas e desfocadas dos interesses do povo brasileiro – e uma vez prejudicadas essas relações, o povo chileno certamente também seria afetado.
Nesta quarta, José Antonio Kast assume a presidência do Chile. Kast representa um partido de direita, e foi eleito após o governo de esquerda de Gabriel Boric. A alternância de poder entre diversas visões programáticas e ideológicas, compõe uma das características essenciais da democracia. Num momento em que a potência norte-americana se exibe, como nunca, em suas cores autoritárias, a valorização democrática na América do Sul é um trunfo para o mundo.
Colocar o equilíbrio de forças institucionais em risco por causa de polarizações de cunho eleitoral, seria um desserviço ao papel político do continente. Mas é isso que se vislumbra, quando o presidente da República brasileiro se recusa a comparecer ao evento de posse do colega chileno, após haver confirmado que iria. Lula mudou de ideia de última hora, ao saber que seu possível concorrente direto nas eleições deste ano, o filho de Jair Bolsonaro, senador Flávio Bolsonaro, estará na solenidade.
Em janeiro, Lula e Kast se encontraram no Panamá, fortalecendo a agenda bilateral, demonstrando mútuo respeito político e institucional. Tanto o convite dos chilenos a Flávio, como a desistência de Lula de ir à possem configuram sinalização temerária de negação da agenda, bem como de afrouxamento dos laços que devem ser mantidos nas democracias, para o bem coletivo das nações envolvidas.
Melhor seria a manutenção da presença do chefe de Estado do Brasil no evento, o que seria símbolo de maturidade institucional – ao invés da imaturidade política que a ausência de Lula irá transmitir, agora, tanto para brasileiros quanto para chilenos.
Integrantes do governo do Brasil já se encontravam no Chile quando a decisão do titular do Planalto foi comunicada, sem maiores explicações, desmontando os preparativos da diplomacia de ambos os países. O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, será o representante oficial do país. Advogado de 59 anos, com nove filhos, defensor, quando estudante, do regime ditatorial de Pinochet, José Kast já havia perdido as eleições presidenciais por duas vezes, antes da vitória no ano passado.
Sua ascensão é cercada por expectativas e temores, os quais o equilíbrio das relações institucionais tende a abrandar, no exercício do poder diante das necessidades da construção de consensos numa democracia. O cancelamento da viagem de Lula à posse é um mau começo – para os dois lados.