Editorial JC: De Minneapolis a Milão
Reação institucional e da população ao uso da força policial extrema contra imigrantes e cidadãos fez o presidente Trump dar um passo atrás
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A morte de dois norte-americanos que protestavam contra o as ações do Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas (ICE, na sigla em inglês), departamento policial que tem promovido uma verdadeira caça aos imigrantes nos Estados Unidos, levou o prefeito de Minneapolis a declarar que as operações do governo Donald Trump poderiam ser vistas como uma invasão à cidade. “É uma invasão contra a nossa democracia, a nossa república e cada um de nós”, afirmou Jacob Frey.
A mais de 7 mil quilômetros de distância, o prefeito de Milão, na Itália, que vai sediar os Jogos Olímpicos de Inverno, a partir de 6 de fevereiro, disse que o ICE é “uma milícia que mata”. Para Giuseppe Sala, “está claro que eles não são bem-vindos em Milão, não há dúvida”, complementando depois, “não há garantias de que eles se comportarão conforme nossa forma democrática de garantir a segurança”. A Casa Branca anunciou o envio de agentes para “avaliar e mitigar riscos de organizações criminosas transnacionais”.
O prefeito de Milão deixou uma pergunta cada vez mais pertinente, e se espalha no mundo inteiro – também nos EUA, de maneira crescente: “Será que não podemos simplesmente dizer não a Trump?”, indagou, em tom de inquietação e impaciência que reflete não apenas parte da opinião pública internacional, mas o desejo de representantes de instituições democráticas. Afinal, é legítima a preocupação pela escalada autoritária de uma das maiores potências bélicas do planeta.
Dizer não ao atual presidente dos EUA é necessário, e pode dar resultado. A reação institucional e da população ao uso da força policial extrema contra imigrantes e cidadãos fez Trump recuar um passo. A quantidade de agentes em Minneapolis está sendo reduzido, e os procedimentos de fiscalização dos imigrantes devem ser menos agressivos. Mas o ICE já ganhou fama, e se torna a sigla do trumpismo que não é bem-vindo no mundo, como na Itália, nem dentro de casa, como na cidade do estado de Minnesota.
Mais complexo é dizer não aos ataques de guerra e intimidação a diversos países, como a Venezuela, o Irã ou a Groenlândia. Mesmo assim, posturas de enfrentamento, a exemplo da exibida pela presidente do México, Cláudia Sheinbaum, demonstram eficácia para receber de Donald Trump o respeito que o presidente estadunidense faz questão de desprezar, em diversas ocasiões.
Vale recordar que Trump, há apenas algumas semanas, afirmou que iria invadir o território mexicano para combater os cartéis de drogas. Em recente publicação nas redes sociais, mudou a abordagem, e elogiou Sheinbaum escrevendo que os mexicanos “têm uma líder maravilhosa e extremamente inteligente”.
Com o esvaziamento institucional da Organização das Nações Unidas (ONU), o pronunciamento de lideranças políticas nacionais e locais, dentro e fora das fronteiras norte-americanas, passa a ser contraponto essencial para frear o ímpeto de domínio e a fome de violência de Donald Trump.