Editorial JC: Onde a informação circula
Censura à internet no Irã e aos jornalistas na Venezuela são exemplos da importância da liberdade de comunicação em um ambiente democrático
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Às voltas com mais uma onda de protestos nas ruas, o regime do Irã bloqueou a internet no país, a fim de evitar a disseminação da contrariedade popular, e impedir que as pessoas se encontrem a partir da troca de mensagens instantâneas. Enquanto isso, na Venezuela, jornalistas continuam restritos, ou mesmo proibidos de fazer seu trabalho, depois da abdução de Nicolás Maduro pelo governo de Donald Trump, dos Estados Unidos, e a permanência do autoritarismo como pulsão no exercício do poder – nos dois países, para tristeza de venezuelanos e norte-americanos.
Os dois casos exprimem facetas comuns dos regimes totalitários, bem como de líderes que preferem se ocultar na censura do que mostrar como são e o que fazem para a população. E não é coincidência que o jornalismo seja alvo comum e preferencial de ditadores e aspirantes a autocratas. Onde informação circula, a liberdade, mesmo cerceada, se insinua. A imprensa expõe fatos, divulga opiniões e traz à esfera pública contradições, equívocos e suspeitas sobre governantes e integrantes do Legislativo e do Judiciário, bem como de suas relações destorcidas com a iniciativa privada. Não é raro, infelizmente, que interesses alheios ao interesse coletivo se unam contra o jornalismo, visto como ameaça de desestabilização – quando reflete a desestabilização praticada nos bastidores do poder.
O corte da internet em território iraniano obedece à cartilha do silenciamento e da repressão. Nenhuma novidade para os iranianos, mas a onda de manifestações que teve início no final do ano parece ter gerado repercussões que abalam o regime, ao ponto de se enxergar a circulação de informações como risco em grau elevado. O bloqueio do fluxo das redes, assim, foi aplicado sem piedade, como se fosse um manto gigante jogado em cima de um incêndio de descontentamento. A insatisfação popular, contudo, não se dirime facilmente.
O impedimento da entrada de jornalistas e a proibição do uso de câmeras na Venezuela, tampouco são medidas estranhas à população, ou aos profissionais que se arriscam para levar notícias ao público do país e do mundo. O governo da nova ditadora, Delcy Rodriguez, pode ser ainda mais duro com a imprensa que o de Maduro, atualmente preso em Nova York. Rodriguez assume num momento conturbado da história contemporânea, com a Casa Branca divulgando que a Venezuela está sob tutela dos EUA, tanto para os negócios do petróleo quanto para as decisões de governo. E se a ex-vice aperta o cerco a jornalistas, deve ter não somente o aval, como o incentivo de Trump, que também não gosta de ser contrariado pelos jornais, e mantém o hábito de inventar notícias comprovadamente falsas.
O que acontece na rotina de nações aprisionadas pelo totalitarismo, e transparece mais nas crises como passam o Irã e a Venezuela, deve servir de alerta às instituições nos países em que a liberdade pode respirar sem aparelhos: a informação livre é o ar que circula no ambiente da democracia.