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Editorial JC: Transição está longe

Intervenção dos Estados Unidos na reserva petrolífera da Venezuela mostra, na prática, o quanto a transição energética está distante de nosso tempo

Por JC Publicado em 07/01/2026 às 0:00 | Atualizado em 08/01/2026 às 9:19

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Agendas sobrepostas por uma operação militar que violou as leis internacionais, segundo o olhar estarrecido do mundo e posicionamento oficial da Organização das Nações Unidas (ONU), o sequestro do ditador Nicolás Maduro pelo governo de Donald Trump nos Estados Unidos, ora coloca em pauta a agenda política, na disputa que parece reeditar as áreas de influência para as superpotências; ora põe em destaque a agenda econômica, razão principal para a demonstração de força bélica contra o tirano de um país em crise, abandonado por antigos aliados de peso.

Na superposição exposta hibernam duas transições que, na visão de torcedores apaixonados, parecem apenas dormitar. Uma é a transição para o regime democrático na Venezuela, cuja população já fugiu aos milhões para países vizinhos – e até para os Estados Unidos, antes de Trump chegar e considerar todo imigrante invasor. Desta vez, no entanto, a ilusão da vitória repentina e improvável da democracia depois de décadas de regime de exceção, foi rapidamente desfeita pelos supostos salvadores. Trump nem fez alusão a isso quando viu pela TV suas tropas levarem Maduro, na madrugada. E só abordou o assunto quando questionado, dizendo claramente que a oposição não estaria preparada para governar, porque aos interesses estadunidenses, o melhor é um regime chavista pró-EUA, sem ninguém para atrapalhar os negócios.

Outra mudança lentamente em curso – a democracia na Venezuelana talvez demore, mas deve chegar primeiro – vem a ser a chamada transição energética. A substituição da matriz poluente e causadora das mudanças climáticas por uma matriz sustentável, renovável. O problema é que aquela que polui constitui uma das maiores fontes, além de energia, de dinheiro para pequenas parcelas da humanidade. O “ouro negro”, como já foi apelidado o petróleo, sustenta antiga história de privilégios e desigualdades, do Oriente Médio ao Brasil. E faz o mundo inteiro girar há tanto tempo que, dificilmente, será deixado para trás no período de uma geração próxima da nossa – a não ser que a crise ambiental se transforme em desastre, via apocalipse climático, pondo os seres humanos num beco sem saída.

A decisão do presidente Lula, meses atrás, a favor da exploração da Margem Equatorial, representou, para muitos, um golpe de pragmatismo na ilusão da transição energética – embora o líder brasileiro tenha impulsionado os iludidos, garantindo que os recursos do petróleo amazônico serão utilizados para financiar a transição. Agora, a honestidade brutal do ocupante da Casa Branca vem revelar não apenas a dimensão econômica, mas o peso político da economia do petróleo na manutenção e consolidação do posicionamento dos países no tabuleiro global.

A transição energética é necessária, urgente e possível. O petróleo pode ser considerado uma espécie de droga da civilização, como tem sido ultimamente nomeado. Mas a passagem do modelo atual para algum outro, não dependente do petróleo, não parece fácil de ser feita, quando acabamos de atravessar um quarto do século 21 mergulhados num poço sem fim.

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