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Editorial JC: Fila e corrupção maiores

Além da descoberta de um esquema de desvio que prejudicou os aposentados, os brasileiros viram a lista de espera do INSS dobrar nos últimos anos

Por JC Publicado em 30/12/2025 às 0:00 | Atualizado em 30/12/2025 às 7:01

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Quando deu início ao terceiro mandato no Planalto, o presidente Lula fez questão de afirmar que iria reduzir a zero a fila de espera de pendências no Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS). O atual governo recebeu do anterior, de Jair Bolsonaro, a demanda de uma fila de 1,2 milhão de pessoas.

Quase três anos depois, a realidade é bem, diferente da promessa: ao invés de diminuir, a fila cresceu - mais que duplicou, na verdade, saltando para 2,8 milhões de cidadãos requerendo aposentadorias, pensões, Benefícios de Prestação Continuada (BPC), licença-maternidade e perícias de auxílio-doença, segundo reportagem do UOL na segunda-feira. Entre o que se disse e o que não se conseguiu fazer, a distância é enorme, demonstrando o abismo entre a retórica política e o cotidiano da população.

A constatação, a partir dos dados oficiais do governo, fazem triste par com a descoberta, este ano, de um esquema de corrupção que desviava dinheiro dos aposentados. Os descontos indevidos começaram no governo passado, mas o volume roubado explodiu no atual governo. O que era ruim ficou pior, assim como o tamanho da fila formada por quem necessita com urgência dos benefícios. Nos dois casos, a vulnerabilidade da população é exposta com requintes de incompetência, no caso da fila, e de crueldade, no caso do assalto às contas dos aposentados.

A resposta protocolar do governo, através da gestão do INSS, é que a fila aumentou porque os benefícios foram ampliados. Trata-se de uma lógica burocrática que não colabora, no entanto, com o entusiasmo do presidente recém-eleito para o terceiro mandato, três anos atrás. O próprio Lula deveria vir a público explicar a diferença gigantesca entre a perspectiva de zerar a fila e o seu oposto, o crescimento em descontrole. Certamente o presidente da República não deve estar satisfeito com a justificativa oficial, diante do que ele prometeu realizar, mas não cumpriu.

A nota divulgada diz que "o INSS tem implementado diversas medidas com o objetivo de enfrentar essa situação, como a realização de mutirões e, mais recentemente, a criação de um comitê de enfrentamento à fila". Os brasileiros tomam conhecimento, então, que o referido comitê foi criado apenas recentemente, apesar da promessa de campanha ter sido feita antes de o governo assumir. Infelizmente, as diversas medidas não deram conta da situação - e o quadro se tornou pior, o que é mais grave do ponto de vista da administração pública.

Do ponto de vista político, a combinação de um escândalo de corrupção com a suspeita do envolvimento de aliados do governo, e até de familiares do presidente da República, com a permanência e crescimento de um problema, sim, histórico, que por isso mesmo deveria ter a solução priorizada, pode ser uma combinação difícil para explicar à população. São dois fatos concretos que abalam o imaginário coletivo: a fila da demanda por serviços e o assalto aos aposentados. Com nova campanha se aproximando, os brasileiros aguardam rápidas mudanças no INSS.

 

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