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Editorial JC: Apelo contra a indiferença

Em seu primeiro discurso natalino como pontífice, Leão XIV recorda o sofrimento de povos marcados por guerra, pobreza, injustiça e terrorismo

Por JC Publicado em 26/12/2025 às 0:00 | Atualizado em 29/12/2025 às 7:19

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Líder e representante de uma das maiores religiões da história da humanidade, o papa Leão XIV aproveitou a oportunidade da data natalina, celebração do nascimento de Jesus Cristo, para resgatar valores essenciais para o cristianismo e a fé que deve ser praticada pelos católicos – não apenas na introspecção, mas sobretudo em direção ao outro, ao próximo, por mais distante que pareça estar. Pedindo humildade e responsabilidade, o papa orou por paz, estabilidade, justiça e consolação para quem sofre com as guerras, a violência, a perseguição, o terrorismo e a pobreza. E se dirigiu diretamente aos que mais sofrem: os palestinos em Gaza, os migrantes de qualquer origem, e populações de países no Oriente Médio e na África.

Leão XIV exortou os fiéis em todo o mundo a abandonarem a indiferença diante dos sofredores. O reconhecimento de que os indiferentes não apenas estimulam, como fazem parte dos problemas contemporâneos, explica a ênfase papal nessa declaração. A quantidade de conflitos armados e tecnologicamente alimentados para matar pessoas, a legião de fugitivos de seus países por razões políticas e humanitárias, a disseminação de radicalismos que se traduzem em ódio e intolerância – a soma disso tudo em nossa época deveria provocar muito mais indignação e mobilização do que se vê. O que enxergamos há algumas décadas é a normalização das agressões aos valores humanos e às virtudes humanistas, valores e virtudes que se confundem com as lições das grandes religiões, como a cristã.

A tenda de Cristo para o nascimento do messias em um estábulo, como afirmou o papa, deve recordar a todos sobre as tendas dos que padecem em Gaza, expostos ao frio e à chuva. Em comparação corajosa para um pontífice norte-americano, diante de tantas agressões contemporâneas, Leão XIV disse que se recusar a ajudar pobres e estrangeiros é o mesmo que rejeitar o próprio Deus. A negação do acolhimento, portanto, pode ser vista como negação da fé e dos fundamentos religiosos. Em tempos de xenofobia abertamente instalada como política de Estado, seja sob Donald Trump nos EUA ou em outras partes do planeta, como na Europa, a fala do papa ganha contornos dramáticos de apelo em prol da vida.

Sua mensagem tocou ainda o horror das guerras para a juventude convocada para matar e morrer. “Frágeis são as mentes e as vidas dos jovens forçados a pegar em armas, que nas linhas de frente sentem a insensatez do que lhes é pedido e as falsidades que enchem os discursos pomposos daqueles que os enviam para a morte”, disse, solicitando que “o clamor das armas cesse”, inclusive, na Ucrânia, invadida pela Rússia num conflito prolongado de disputa territorial gerada pelo Kremlin.

Os indiferentes à dor das guerras e seu legado de sangue transmitido a futuras gerações, foram o público a quem o papa Leão XIV se dirigiu, mas especialmente os líderes que planejam e executam matanças e torturas, através do uso da força desmedida no poder que deixa a representação coletiva para expressar o ego hipertrofiado de seus perpetradores.

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