Editorial JC: O sentido da festa
Da tradição que se renova no encontro da reunião familiar à solidariedade dos gestos de generosidade num país desigual, a importância natalina
Clique aqui e escute a matéria
O clima simbólico do final de ano concentra o seu ápice entre a véspera de Natal e a noite de réveillon. Ciclos de renovação encontram significados e marcos reconhecidos na celebração do nascimento de Cristo e na passagem da meia-noite de um ano para outro, como se tudo mudasse na virada de um segundo, na contagem de outra volta da Terra ao redor do sol.
As festividades natalinas trazem a mensagem da fé, mas ao mesmo tempo, ao transcenderem a religiosidade, tocam na essência do que nos faz humanos. O Natal é uma ocasião de reflexão do indivíduo em ambiente coletivo – no lar, com a família, na igreja, com amigos, na rua, com a comunidade ou a multidão. E assim abre a oportunidade para a reflexão coletiva, onde todos somos levados a sentir o peso do presente através da leveza de uma data, e sua localização entre o passado e o futuro. A comemoração do nascimento histórico do Cristo pode suscitar a introspecção sobre o papel de cada um, que não se desvencilha do legado religioso: não existe o indivíduo por si e para si, mas por outros e para os outros.
Se pensarmos no mundo em que Jesus nasceu, segundo a tradicional narração bíblica, e no mundo que deixou, em pouco mais de três décadas de passagem pela vida, podemos transportar o exame para as nossas próprias trajetórias. Entre o mundo em que nascemos e o que somos, àquele que vamos deixar para as futuras gerações. Daí que festejar o Natal é, também, resgatar o que passou e projetar o que virá. O passado pode ter sido veloz, e parecer incompreensível, de longe. O futuro pode parecer vago, e ser vasto o suficiente para caber todos os sonhos e incertezas. Mesmo quando o presente, opaco ou brilhante, surge intenso na árvore de Natal, o passado e o futuro estão junto, fazem parte da festa.
E a festa, em seu sentido mais amplo paralelo ao ritual, é necessidade de comunhão. Do sagrado com a vida simples, do transcendente com a urgência da fome, do sermão com a escuta. Na descontração familiar de pessoas que não se veem no dia a dia, ou das que estão sempre juntas, há espaço para o convívio, maior do que a tolerância: o tolerante se sente superior, mas não resta hierarquia na convivência. Ser junto é ser igual – o que diz muito das dificuldades num país de tanta desigualdade. Na desigualdade, somos apartados, como se a vida se desmontasse em guetos, portões, cercas e muros. Vale mais a perspectiva do astronauta – olhando a Terra lá de cima, não são vistas divisões, e o diminuto oásis no vácuo está posto aos seres vivos, sem distinção, e à humanidade, sem exclusões.
Que a generosidade natalina se distribua não apenas nesta noite festiva, mas se estenda ao longo dos dias, na rotina de quem estende a mão, e de quem precisa de gestos de proximidade o ano inteiro.