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Editorial JC: Ricos mais ricos

Problema bem conhecido pelos brasileiros, a desigualdade provoca grave concentração de renda no mundo, em proporções desafiadoras para a humanidade

Por JC Publicado em 11/12/2025 às 0:00 | Atualizado em 12/12/2025 às 6:38

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Foi divulgada a terceira edição do Relatório da Desigualdade Global, formulado pela equipe de Thomas Piketty na World Inequality Lab em Paris. A relação mais contundente dá a dimensão do abismo entre ricos e pobres em escala planetária: apenas 56 mil pessoas, o equivalente a 0,001% da população mundial, concentram o triplo do patrimônio de quase a metade adulta da humanidade, ou cerca de 2,8 bilhões de pessoas.

Expandindo um pouco a régua, os 10% mais ricos têm o equivalente a três quartos de todos os bens, enquanto a metade mais pobre fica com tão somente 2% da riqueza disponível.

Trata-se de um longo processo de concentração que vem se intensificando nas últimas décadas, o que demonstra a direção equivocada do caminho percorrido até aqui. Segundo o relatório, a partir dos anos 1990, a riqueza de bilionários e dos indivíduos com mais de US$ 100 milhões, aumentou em média 8% ao ano, quase o dobro do ritmo de crescimento da renda na metade mais pobre da população.

Isto é, para repetir uma fórmula textual muito utilizada, e mais do que nunca, verdadeira: os ricos estão ficando mais ricos, e os pobres, comparativamente aos ricos, mais pobres.

O poder financeiro exercido pela minoria bilionária, e também pelos chamados centimilionários, é um poder sem precedentes, segundo a equipe de Piketty. É comum, atualmente, encontrar 1% da população de uma região com mais riqueza do que a parcela de 90%. Trata-se de uma exclusão que vai configurando a civilização em indisfarçável desequilíbrio, que se revela não só na distância da renda e do patrimônio entre quem tem mais e quem tem menos, mas sobretudo nas condições de vida que dependem de mínima estabilidade financeira.

Vale mencionar a diferença no rendimento per capita mensal entre os mais pobres e os do topo: na África subsaariana, o valor é menor do que R$ 1.900, enquanto na América do Norte e Oceania, chega a quase R$ 24 mil. A média mundial é de R$ 7,5 mil, e na América Latina, de menos de R$ 7 mil, abaixo da média.
A crise climática foi abordada, mostrando o tamanho da responsabilidade dos mais ricos na desarrumação ambiental. A metade mais pobre responde por 3% das emissões de carbono associadas ao capital privado (participação em empresas), enquanto os 10% mais ricos emitem 77% das emissões. É uma perspectiva inquietante, na medida em que a desigualdade aumenta.

No mundo desigual, o Brasil está em destaque, como sabemos. Em 216 países analisados, estamos no quinto lugar da desigualdade mais acintosa. Aqui, os 10% mais ricos ficam com uma fatia de quase 60% da riqueza nacional, e a metade mais pobre aufere menos de 10% da riqueza. Na concentração de bens e patrimônio financeiro, o Brasil está em sexto lugar, com 1% dos mais ricos detendo um terço da renda, e os 10% mais ricos, 70%. Sobra 30% para 90% dos brasileiros.

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