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Editorial JC: Xenofobia e intromissão

Alusão à chamada Doutrina Monroe, de dois séculos atrás, faz estratégia de segurança nacional dos EUA assumir postura de conflito com o mundo

Por JC Publicado em 07/12/2025 às 0:00 | Atualizado em 09/12/2025 às 7:23

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Para dar coesão e sentido ao que pareciam atos isolados de um líder inconsequente, a Casa Branca divulgou um documento com o objetivo de esclarecer e resumir os fundamentos da estratégia de segurança nacional que guia o governo de Donald Trump.

O presidente que já vinha revogando a participação dos Estados Unidos nos organismos globais multilaterais, e investindo maciçamente na implantação do medo em seu próprio país, caçando, prendendo e expulsando imigrantes, traz agora na justificativa posta em texto no papel a diretriz que representa o maior empecilho à globalização e aos valores que eram defendidos pelos antecessores de Trump. Mesmo os republicanos, como George W. Bush, não foram tão longe no caminho escolhido pelo atual presidente norte-americano.

A virada que põe pelo avesso a imagem da Estátua da Liberdade para os cidadãos dos EUA e para o mundo, também altera a importância relativa da América Latina para os desígnios de Washington. Se nas últimas décadas o restante do continente americano pouco importava, a nova estratégia de segurança nacional – emoldurada pela Doutrina Monroe, de 200 anos atrás – retoma o espectro do intervencionismo e da interferência política nos assuntos internos dos países das Américas Central e do Sul.

Segundo o documento, o governo Trump quer aliados no poder nesses países, e deve aumentar a presença de forças militares no continente, deixando locais mais distantes, inclusive a Europa, em segundo plano.

Enquanto a original intenção do então presidente James Monroe, em 1823, ao declarar “A América para os americanos”, visava a proteção do país em um contexto pós-colonialista, visando manter os europeus fora de tentações imperialistas, o que Trump tem apresentado em palavras e atos é quase um neoimperialismo. Escancaradamente xenófobo, o nacionalismo trumpista encontra semelhança com a visão russa de Vladimir Putin, e da tradição soviética de assimilar nações sob um mesmo governo.

O atual ocupante da Casa Branca sinaliza a meta de afastar concorrentes – especialmente a China – na zona de influência do que chama de “hemisfério ocidental”, o continente americano de norte a sul. O que teve início numa disputa econômica pela hegemonia do mercado global, começa a migrar para a composição geopolítica, sob o repetido mantra da segurança nacional.

Como se a soberania dos Estados Unidos fosse maior e valesse mais do que a soberania dos demais países. Como se o interesse do governo de Trump se confundisse com o da população norte-americana, e sobrepujasse o interesse de todos os demais povos da Terra. A superpotência evocada por Donald Trump está fora de moda e não deveria ser posta em pauta no século 21.

Caberá às instituições democráticas dos EUA e aos seus cidadãos demoverem o atual presidente desse arriscado retorno ao passado. Em caso contrário, o avanço da Doutrina Monroe recapeada por Trump significará o advento de horizontes sombrios não apenas para a América Latina, mas para o mundo inteiro.

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