Planejamento a longo prazo é essencial para o Brasil
Sem metas que levem em consideração os desafios crescentes do desenvolvimento sustentável, o prejuízo nas próximas décadas será trilionário

As questões climáticas e seus efeitos na vida das populações em todo o mundo já foram tratadas com desdém por sucessivos governos, por muito tempo. Ainda hoje, apesar dos evidentes efeitos das mudanças do clima e do aumento da temperatura média no planeta sobre a configuração da vida, em especial para os assentamentos humanos, não são poucos os líderes, políticos e cidadãos comuns que preferem olhar para outro lado, minimizando as consequências acumuladas, e os prejuízos que tendem a ser maiores nos próximos anos, em decorrência do novo normal do clima.
Em entrevista para o JC-PE, a secretária nacional de Planejamento, Virgínia de Ângelis, destacou a importância de uma visão de longo prazo com metas executadas, para que o desenvolvimento brasileiro sustentável aconteça até 2050. Sem essa premissa, de acordo com a secretária do governo federal, os prejuízos para o país daqui para lá podem chegar em até R$ 1,5 trilhão. É muito dinheiro que faz falta a qualquer nação, sobretudo ao Brasil, com parcela considerável do povo ainda amargando a falta de respeito a direitos básicos, e sem acesso a oportunidades para garantir melhor qualidade de vida para si e sua família. Aliás, a visão de longo prazo faz falta em grande parte da administração pública brasileira, e não apenas no que concerne à sustentabilidade e às relações com o meio ambiente. Aprisionados à brevidade de um mandato, a maioria dos detentores de cargos eletivos, no Executivo e no Legislativo, vão deixando para depois o que importa, em termos de conquista definitiva, baseando promessas e compromissos no curto prazo, até a próxima eleição. Esse olhar reduzido também custa caro aos brasileiros.
Tendo como foco o documento Estratégia Brasil 2050, Virginia de Ângelis afirmou que não se pensa em um salto no desenvolvimento em apenas 25 anos. A discussão de perspectivas e gargalos regionais está na mira do plano, para que a integração dos governos estaduais e municipais não escape à esfera federal. Para ela, o consenso da necessidade de superação das desigualdades regionais e sociais deve nortear o debate, e as ações planejadas num horizonte de vários mandatos de governo. “Numa democracia, é esperado que haja mudanças”, afirmou, revelando que a ambição é que “o plano possa ser discutido e ter continuidade, reconhecido como elo integrador das diversas pautas, ideologias e posições partidárias”. Será um feito e tanto, num país em que matérias essenciais para as demandas públicas se transformam em cabos-de-guerra do casuísmo político.
De fato, é imprescindível aproveitar os temas que geram convergência, para acelerar os processos de investimento estrutural e enfrentamento das mudanças em curso, tanto ambiental, quanto demográfica e da base econômica em uma era de transição dos modos de trabalho. Sem esquecer, como diz a secretária nacional de Planejamento, que as tendências globais afetam diretamente o Brasil. Para que a sustentabilidade não continue a ser uma utopia desacreditada ou relegada a poucos setores, sem escala, os governos e a sociedade precisam ter a mesma compreensão da urgência na implantação de práticas que, apesar de consensuais, ainda não refletem a realidade no cotidiano da população.