SAÚDE PÚBLICA | Notícia

Em defesa da Anvisa

Se o presidente da República não está satisfeito com o trabalho de um órgão essencial, antes da bronca pública, poderia oferecer mais estrutura

Por JC Publicado em 25/08/2024 às 0:00

A ciência tem seu passo. Os procedimentos de análise científica para a liberação de medicamentos, por exemplo, não podem prescindir de etapas necessárias para a análise da eficácia, bem como na checagem das informações dos laboratórios. Em todo o mundo, vimos como é possível acelerar os trâmites com segurança, e investimento, durante a aprovação das vacinas contra a Covid, na pandemia. Na chamada normalidade cotidiana, onde as demandas são enormes e também, urgentes, para “andar um pouco mais rápido”, na expressão utilizada pelo presidente Lula há poucos dias sobre a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o trabalho científico requer condições estruturais para se desenvolver. E não, broncas públicas que não contribuem para a credibilidade da ciência, do governo ou dos remédios em exame.
Dirigente da Anvisa, Antonio Barra Torres respondeu, de modo similar, publicamente, por uma carta aberta em que recorda a falta de servidores do órgão, condição que já teria sido comunicada ao governo federal comandada pelo petista. Em seguida, o Ministério da Saúde divulgou nota reconhecendo a excelência do trabalho da Anvisa, e lançando a culpa pela falta de servidores na gestão anterior, de Jair Bolsonaro. A estratégia não é novidade, mas tão pouco zera a responsabilidade de um governo que caminha para a metade do mandato. Se poucos questionam a desimportância da ciência praticada pelo bolsonarismo, não dá para fechar os olhos às dificuldades enfrentadas por pesquisadores, universidades e órgãos como a Anvisa em plena era Lula 3.
O sucateamento da agência, apontado pelo Ministério da Saúde, aliás, deveria ser mais um motivo para a contenção verbal do presidente da República. Ciente da estrutura encontrada no início da gestão, o chefe do Planalto poderia ter economizado uma bronca pública em uma das mais respeitadas instituições nacionais. Ainda mais, sabendo-se que Lula foi provocado pela demanda vinda de um bilionário, dono de farmacêutica. Não pegou bem. Daí a rápida tentativa do Ministério da Saúde, de reverter o estrago da declaração espontânea do presidente – mais uma. Resta o prejuízo à gestão, e à relação da Anvisa com o governo que integra.
A carta aberta de Antonio Barra Torres poderia ter sido feita para um presidente da República negacionista, o que não é o caso. “Com número insuficiente de trabalhadores e com tarefas de trabalho que só fazem crescer, o tempo para realização de tais tarefas só pode se tornar mais longo. Se não há pessoas trabalhando em número suficiente, o trabalho leva mais tempo para entregar resultado”, enfatizou. O Ministério da Saúde, por sua vez, ao mirar a gestão anterior, acertou o presidente Lula, pois reforçou a fundamentação das queixas da Anvisa. Com o objetivo de atender aos pedidos das empresas farmacêuticas, e mais importante, às demandas da população brasileira, a Anvisa precisa ser valorizada, e não, receber um pito presidencial como se a eficiência do trabalho – e do governo – estivesse comprometida.

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