Tráfico e violência globais
No Brasil, na França e em várias partes do mundo, o crime enraizado no comércio ilegal de entorpecentes é um problema global de consequências locais

Os altos índices de mortes violentas em Pernambuco, assim como a insegurança atrelada à vida nas comunidades, são enfrentados pelas forças policiais e pela gestão pública a partir da constatação do domínio do crime organizado, ou das chamadas guerras do tráfico. O mesmo pode ser visto em outros estados, a exemplo do Rio de Janeiro, de São Paulo, da Bahia: a violência que assusta a população nas ruas, superlota as penitenciárias e se apresenta em substituição ao Estado e às instituições, decorre, em larga medida, do alcance crescente das gangues do tráfico de drogas, financiadas pelo consumo em larga escala, seja de parcelas sociais que podem arcar com esse gasto, seja daquelas formadas por dependentes miseráveis, ambas reféns de um drama difícil de sair.
O poder dos traficantes é visível, e se alastra, dentre outros fatores, pela desarticulação entre as esferas de governo, num determinado país, ou no ambiente global que abriga cada vez mais multinacionais do mercado de drogas. Grandes jornais franceses deram destaque, esta semana, ao aumento do tráfico e da violência relacionada ao tráfico por lá, graças à ação de redes de tráfico com elos no Brasil, na Nigéria e na Holanda. Os criminosos nigerianos estão no sul da França, segundo o Le Monde, em facções de origem conhecida pela polícia local. O comércio de cocaína e heroína move as gangues de nigerianos em outros locais da Europa, como a Itália, nação apontada pelo jornal como a porta de entrada de organizações criminosas no território europeu. Em Paris, o combate às drogas tem histórias de desmantelo de redes internacionais que abasteciam clientes em restaurantes e até em cabeleireiros – para se ter uma ideia de como o cotidiano local é atingido em cheio pelo tráfico global.
A violência observada na cidade de Grenoble, por sua vez, é explicada pelo Le Parisien como efeito do tráfico de drogas na região dos Alpes franceses. Há relatos de guerras de gangues com tiroteios duas ou três vezes por semana. Num cenário semelhante ao que é comum no Brasil, é descrito na reportagem que os traficantes presos não deixam de gerir seus negócios das penitenciárias. O roteiro idêntico mostra a vulnerabilidade dos sistemas institucionais ao avanço do crime organizado, seja num país de precária estrutura prisional, seja na Europa, com supostas melhores condições de ressocialização. O tráfico de drogas configura assunto de todas as nações, que precisam encarar o desafio de enfrentar e desestruturar a máquina montada pela criminalidade, de forma conjunta e intensificada, com meios de força, inteligência e aparatos legais compartilhados.
A interferência nociva das drogas e da violência das disputas de gangues na rotina de habitantes de cidades longínquas, é mais um indicativo da necessidade da criação e aperfeiçoamento de instrumentos para a governança global. No mínimo, para esforços concentrados de fortalecimento de redes de proteção contra a entrada e o consumo de drogas – não apenas nos destinos, mas especialmente nas fontes de produção das substâncias entorpecentes.