FEMINICÍDIOS | Notícia

Denuncie – antes que seja tarde

Como demonstra o caso mais recente, a brutalidade contra as mulheres precisa ser cada vez mais denunciada – para que se possa evitar o pior

Por JC Publicado em 30/07/2024 às 0:00

Os crimes violentos que vitimam as mulheres em Pernambuco fazem parte de uma realidade antiga que deve ser transformada, desde a sua estrutura cultural – machista – histórica, até a manifestação do ódio que tem como alvo, na maioria das vezes, companheiras e ex-companheiras de homens acostumados a assediar, agredir, abusar e, no cúmulo da insensatez, ainda ostentam a coragem de culpar as suas vítimas, quando a violência é descoberta, ou o crime, infelizmente, é consumado. Os feminicídios no estado têm ocupado a preocupação da política pública de segurança, com o empenho das autoridades e dos pro fissionais da área, e todos enfatizam uma necessidade indiscutível: a denúncia das mulheres e de seu círculo de convivência ou vizinhança, a respeito dos agressores que podem, não repentinamente, se tornar assassinos.
A técnica de enfermagem baleada pelo ex-marido, um cabo da Polícia Militar, no último domingo, foi a vítima mais recente dessa violência inaceitável. Como chamou a atenção o colunista de Segurança do JC-PE, Raphael Guerra, o caso é um alerta para o crescimento desse tipo de crime em Pernambuco, e ao mesmo tempo para a importância da denúncia, ao primeiro sinal de agressão. Para que as forças policiais e a Justiça sejam capazes de atuar a contento, afastando o perigo para a mulher envolvida e advertindo o agressor. A informação prévia é fundamental para a prevenção. E para tanto, a comunicação das vítimas e do seu entorno passa a ser um fator crucial de proteção.
A Polícia Civil do estado traz dados assustadores, que reafirmam tal necessidade. Quase 75% das vítimas de feminicídios em Pernambuco no primeiro semestre, jamais prestaram qualquer queixa sobre a violência que, certamente, as acompanhava há bastante tempo. Seja por medo de mais violência, seja por outro motivo, as mulheres não denunciam. É urgente mudar esse quadro. Campanhas de esclarecimento e mobilização em torno da preservação da vida, sem temores nem ameaças, precisam ser multiplicadas, chegando às vítimas e atravessando o medo, fortalecendo-as, e enfraquecendo o machismo criminoso que se acredita impune.
A irmã da vítima do feminicídio de domingo passado relatou que as ameaças do ex-marido à sua irmã eram constantes, mas sua irmã preferia não registrar queixa na delegacia, por duvidar que o antigo companheiro, com quem viveu 14 anos, pudesse realizar o que dizia. Mas realizou. O trágico relato da irmã é mais um elemento que há de ser realçado para as mulheres: para que não se duvide que alguém que já esteve tão próximo seja capaz de cometer atos extremos de violência. A criminalidade cotidiana em Pernambuco e em todo o Brasil comprova que sim, são capazes. Sobretudo se não forem freados, de alguma forma, pela rede institucional de proteção às mulheres.
Vale repetir o pedido da delegada Fabiana Leandro, gestora do Departamento de Polícia da Mulher (DPMul), em entrevista recente ao JC-PE: “A maioria das vítimas nunca denunciou algum tipo de violência sofrida, por isso a gente insiste para que as mulheres denunciem no primeiro sinal”. Antes que seja tarde.


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