INSEGURANÇA NAS RUAS | Notícia

Mais vítimas das motos

A expansão deste meio de transporte por aplicativos gera cada vez mais atendimentos do SAMU por quedas e colisões na Região Metropolitana do Recife

Por JC Publicado em 21/05/2024 às 0:00

A população da capital pernambucana e das cidades vizinhas vem notando a piora geral no trânsito, nos últimos anos. E não é apenas pelo acúmulo crescente de veículos em vias estranguladas. A questão estrutural começa pelo descaso com o transporte público, deixado praticamente de lado pelos governantes. O metrô sucateado, campeão de queixas dos usuários, recebe a desistência de grande parte deles, que preferem alternativas mais confiáveis de mobilidade – e até, por incrível que pareça, de aparência mais segura do que a travessia por trilhos em vagões apertados, no qual os passageiros ficam sujeitos a assaltos e assédios, além do quebra-quebra rotineiro que deixa muita gente no meio do caminho. E os ônibus, igualmente desconfortáveis, igualmente palco da insegurança pública, tornam-se opções de segundo plano, em comparação à oferta das motos por aplicativos, que aparecem no vácuo do serviço público decente.
A escolha das motos obedece a uma lei de mercado, preenchendo a demanda existente. Por ser um transporte rápido, sem o estresse do metrô e dos ônibus lotados, conquista cada vez mais gente. O problema é o risco associado a esse modal, assim utilizado. A estatística de atendimento do SAMU, nos últimos anos, demonstra que o perigo é real: se em 2021, o número de atendimentos a vítimas de motos na Região Metropolitana do Recife não passou de 7 mil, sendo quase a metade na capital, no ano passado esses números foram de pouco mais de 9,5 mil e 5,4 mil, respectivamente. De 2021 a março último, já foram realizados mais de 25 mil atendimentos pelas equipes de urgência móvel no Grande Recife, dos quais quase 15 mil apenas na capital. Em outra face dos números, mais da metade das pessoas que chegam à Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD) com traumas pedindo cuidados, no Recife, são vítimas de ocorrências com motos. Conforme afirmou o médico ortopedista Júlio Lima, na reportagem especial de Roberta Soares, publicada no último domingo no JC, quase a totalidade das amputações causadas por motos não foram consequência de uma queda ou de um buraco, mas sim, de colisões. “E sabemos que quando uma colisão de trânsito acontece, é porque alguém foi imprudente”, enfatizou o médico.
O argumento da estatística – que é o mesmo da sobrecarga nas emergências, ou seja, do sofrimento real da população – infelizmente demora a sensibilizar os gestores públicos. Até que haja distúrbios maiores na ordem pública, governantes fazem de conta que o problema não é com eles – nos três níveis de poder, incluindo os parlamentos e o Judiciário, que também devem regular a vida coletiva, e cobrar do Executivo melhores serviços prestados para os habitantes das cidades, dos estados e do país. A proliferação de motocicletas e de passageiros arriscando suas vidas na garupa, pede um freio de arrumação urgente das autoridades, com a melhoria imediata da oferta do transporte público.

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