Quem tem medo das urnas brasileiras?
Fomentar a confiança no processo é tarefa das autoridades eleitorais, dos partidos políticos e da sociedade civil organizada................
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Infelizmente, não dispomos de evidências para falar sobre medo, mas dados levantados pela Quaest nos ajudam a entender o grau de confiança. Em 2022, 78% dos entrevistados diziam que confiavam nas urnas eletrônicas. Esse percentual caiu para 65% em 2026. O curioso é que não existe diferença entre homens (65%) e mulheres (64%) nem por escolaridade - ensino fundamental (64%), Ensino médio (65%) e Ensino Superior (64%). O mesmo não pode ser dito quando “abrimos os dados”, como diria o professor Felipe Nunes, por religião e ideologia. Os evangélicos confiam menos (57%) nos resultados das urnas do que os católicos (68%). Por sua vez, eleitores que se identificam como “Lulistas” (82%) e “Esquerda não lulista” (88%) tendem a concordar mais com a afirmação de que “as urnas eletrônicas são confiáveis”. Por outro lado, entrevistados que se posicionam como “Direita não Bolsonarista” (52%) e “Bolsonarista” (40%) tendem a confiar menos no sistema eletrônico de apuração de votos. Isso significa que existe uma forte clivagem dentro da sociedade brasileira sobre o grau de integridade do principal dispositivo responsável por agregar as preferências individuais - o voto - e produzir uma decisão coletiva - o resultado da eleição. Em termos substantivos, a confiança da população nas instituições eleitorais é um aspecto fundamental para a integridade eleitoral e para a legitimidade das instituições políticas. Fomentar a confiança no processo é tarefa das autoridades eleitorais, dos partidos políticos e da sociedade civil organizada.
Em Losers’ Consent, Christopher Anderson e colegas mostraram que a democracia não se sustenta no consentimento de quem vence, mas na aquiescência de quem perde. A acusação infundada de fraude funciona como seguro retórico. Se ganho, ganhei; se perco, roubaram. Falamos como quem trabalha com esses números. Estamos desenvolvendo uma ferramenta computacional que implementa os métodos estatísticos de detecção de fraude como os testes de dígitos, correlações de comparecimento e modelos de mistura. Quando aplicados aos dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de 2022, não encontramos nenhum sinal de irregularidade. Repetimos esse exercício com os dados de 2018 e os resultados também foram nulos, nenhuma anomalia presente nos dados oficiais. O silêncio desses métodos sobre o Brasil pesa justamente porque eles funcionam alhures: flagraram a Rússia de 2011 e documentaram adulteração em cerca de um terço das atas do México de 1988. Na Venezuela, em 2024 temos o caso mais recente e emblemático, a oposição recolheu as atas de quase 82% das mesas e publicou tudo: Edmundo González, 7,1 milhões de votos; Nicolás Maduro, 3,2 milhões. O Conselho Nacional Eleitoral jamais divulgou as suas, e o Centro Carter concluiu que a eleição não podia ser considerada democrática. González partiu para o exílio; Maduro tomou posse.
Resta a novidade de 2026, que não é a fraude: é a internacionalização da deslegitimação. Em 2022 o ataque foi doméstico e fracassou. Em julho de 2025 ele mudou de foro. A carta em que Donald Trump anunciou tarifa de 50% sobre produtos brasileiros citava explicitamente os processos contra Jair Bolsonaro; vieram a revogação de vistos de ministros do Supremo, a inclusão de Alexandre de Moraes na lista Magnitsky e, em outubro, um pacote de exigências para alívio tarifário que tocava nas condições da eleição deste ano. Estamos a poucos dias do primeiro turno das eleições gerais de 2026 e, considerando a melhor evidência disponível, não existe risco de fraude. O risco é outro. Corremos o risco da recusa de reconhecer o resultado. Isso aconteceu em 2022, quando Jair Bolsonaro se recusou a reconhecer a derrota para Lula. Isso aconteceu nos Estados Unidos, quando Donald Trump incentivou a invasão da Casa Branca e também argumentou, sem demonstrar evidências, de que a eleição norte-americana tinha sido fraudada.
Em um cenário internacional marcado pela convergência de ameaças internas e pressões externas, as democracias ocidentais enfrentam uma crise que coloca em questão sua legitimidade, sua capacidade de governar e sua continuidade. No plano externo, regimes autoritários desafiam as regras e as instituições da governança internacional; no plano interno, o avanço da extrema direita tensiona o pluralismo e as garantias democráticas. A interação entre essas dinâmicas afeta a percepção de insegurança e transforma o medo em um recurso político, capaz de alimentar a demanda por soluções autoritárias e aprofundar a erosão democrática.
No domingo, uma das maiores democracias do mundo vai às urnas. Tudo indica que a eleição será apertada, inclusive as pesquisas mais recentes de intenção de votos confirmam esse diagnóstico. A tentação de não reconhecer a vitória do seu oponente não é monopólio de um campo ideológico. Talvez, as duas campanhas já preparem teses de contestação, ainda que os históricos estejam longe de ser simétricos. Vale então a regra que este artigo defende, e que só tem valor se valer também contra o nosso próprio lado: quem acusa, prova. Quem não prova, aceita.
Dalson Figueiredo , professor Associado do Departamento de Ciência Política e bolsista de produtividade do CNPq.
Ernani Carvalho , professor Titular do Departamento de Ciência Política, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas da UFPE e bolsista de produtividade do CNPq.