Escrutinador de uma eleição
Antes das urnas eletrônicas, a votação era feita em cédulas, apuração era sempre demorada. Conto a experiência em uma delas
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Como diria o "Repórter Esso", fui testemunha ocular de um capítulo da história eleitoral de Pernambuco. Em 1986, participei da apuração da eleição estadual, quando voto se contava na ponta do lápis - ou melhor, à mão, cédula por cédula. O Tribunal Eleitoral convocava funcionários do Banco Central e do Banco do Brasil para ajudar na tarefa. Eu trabalhava no Banco do Brasil e fui convocado.
O trabalho não era pesado fisicamente. Pesada era a responsabilidade. E a pressão. Era preciso conferir tudo com atenção, porque qualquer distração podia significar um voto não computado. Mas havia uma compensação. Para cada dia de trabalho, ganhávamos dois de folga. E eu, que naquela época viajava muito pelo mundo, não desperdiçava a oportunidade. Somava as folgas às férias.
A apuração acontecia no Clube Português, que ficava perto do Tribunal Eleitoral. Começava dois dias depois da eleição. Era preciso montar toda a estrutura e esperar a chegada das urnas, transportadas pela Polícia Militar. A orientação era chegar às 7h30. Primeiro, uma reunião com o juiz, que dava as instruções. Depois, mãos à obra. E haja obra!
Hoje, em poucas horas, sabemos o resultado de uma eleição. Naquele tempo, era uma história bem diferente. A apuração levava dias. As mesas eram enormes. Sobre elas, milhares de cédulas. Primeiro, vinham os votos para governador e senador. Os nomes já estavam impressos e o eleitor marcava um X. Depois, os votos para deputado federal e estadual. Nesses, o eleitor precisava escrever o nome do candidato. Não existiam os números que hoje fazem parte da rotina eleitoral.
E aí começavam os problemas. Muitas cédulas eram preenchidas de forma pouco clara. Os fiscais dos partidos ficavam em volta das mesas, tentando descobrir qual teria sido a intenção do eleitor. Cada um, naturalmente, enxergava a sua versão. Às vezes, era preciso chamar a Polícia para controlar os ânimos. Quando não havia consenso, o voto era anulado. O coordenador da mesa examinava a cédula, que era colocada numa caixa especial.
Tudo isso num calor danado. Não havia ar-condicionado. Os mesários recebiam água e garrafas do velho guaraná Fratelli Vita. De vez em quando, aparecia um sanduíche de queijo. Era o nosso intervalo gastronômico. Havia também uma regra curiosa. Eleitor só podia usar caneta preta ou azul. A vermelha era reservada aos escrutinadores. Mesmo assim, vez por outra aparecia na mesa uma cédula preenchida em vermelho. "Era óbvio que alguém da mesa tinha preenchido um voto em branco", lembro.
A primeira jornada terminava ao meio-dia. Voltávamos das 14h às 17h. Depois, todo o material era recolhido pela Polícia e levado para o Tribunal Eleitoral, onde permanecia guardado até o dia seguinte. E tudo começava novamente. Foram três semanas assim. Minha recompensa foi um mês extra de folga no Banco do Brasil. Ótimo, pois eu, na época, viajava muito pelo mundo, sem ter o ponto cortado no banco.
Mas havia uma outra questão: o cansaço mental. Contar milhares de votos manualmente exigia uma concentração enorme. Uma cédula passava, um nome não era registrado, uma conta podia ser esquecida. Pequenos erros que, numa eleição, poderiam fazer diferença.
E quem ganhou? Miguel Arraes, do PMDB, foi eleito governador com 1.587.726 votos. Seu vice era Carlos Wilson Campos. José Múcio Monteiro, do PFL, recebeu 1.018.800 votos, tendo José Muniz como vice. Para o Senado, foram eleitos Antônio Farias, do PMB, e Mansueto de Lavor, do PMDB. Também disputaram aquela eleição nomes como Roberto Magalhães, Margarida Cantarelli, Ivan Maurício, Cid Sampaio e Jacob Nouri Tumajan, do PDT, que obteve 0,33% dos votos.
Na Câmara dos Deputados, os mais votados foram Joaquim Francisco, Fernando Lyra, Roberto Freyre, Osvaldo Coelho, Paulo Marques e Inocêncio Oliveira. Para a Assembleia Legislativa, os mais votados foram João Coelho, Osvaldo Rabelo, Felipe Coelho, Geraldo Pinho Alves, José Aglaison e Manoel Ramos.
Quando lembro daquela eleição, penso no quanto tudo mudou. Hoje, terminada a votação, poucas horas depois o resultado está na televisão, no celular, no computador. Naquele tempo, era preciso esperar. Às vezes, dias.
João Alberto Martins Sobral, colunista social