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Por que a seleção da Argentina não tem negros?

A seleção da Argentina não tem negros porque a sociedade argentina é predominantemente branca, uma população de afrodescendente reduzida:

Por Sérgio Buarque Publicado em 05/08/2026 às 0:00 | Atualizado em 05/08/2026 às 16:35

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Durante a Copa do Mundo, os brasileiros estranharam a ausência de negros na seleção da Argentina, principalmente quando se comparava com a grande presença de atletas afrodescendentes nas seleções europeias. Mais que estranhamento, o perfil da seleção de futebol da Argentina demonstraria, para muitos brasileiros, que os argentinos são racistas. E, como consequência, se afirmando como baluartes da luta contra o racismo, alguns brasileiros afirmavam que torciam contra a Argentina porque os argentinos são racistas. Como se no Brasil não existisse racismo, e como se os países europeus, depois de séculos de colonização da África, tivessem erradicado o racismo.

A seleção da Argentina não tem negros, seguramente, porque a sociedade argentina é predominantemente branca, com uma população de afrodescendente muito reduzida: apenas 0,7% da população total é classificada como negra e 2,9% são descendentes de povos originários. A pergunta agora é outra? Por que a população da Argentina, um país da América Latina, quase não tem negros (proporcionalmente, tem bem menos que a França)?

Segundo a opinião dominante, o racismo original do Estado argentino teria dizimado os remanescentes de escravos e seus descendentes. Essa é uma meia verdade. Embora o Estado argentino tenha jogado os negros como bucha de canhão nas guerras, especialmente na Guerra do Paraguai, e abandonado os descendentes de escravos nas periferias insalubres das cidades, o plano de embranquecimento da população recorreu, principalmente, à atração de grande massa de imigrantes brancos da Europa.

Esta estratégia de embranquecimento da população argentina foi igualmente implantada no Brasil: envio de afrodescendentes para a frente de batalha e para as periferias insalubres das cidades, e imigração de europeus. E, no entanto, os resultados na formação social dos dois países foram completamente diferentes - o Brasil tem hoje 10,2% de pretos e 45,3% são pardos (conceitos do IBGE) no total da população - por conta da escala dos movimentos combinados: tráfico de escravos e migração branca. O tráfico de escravos trouxe para o Brasil mais de quatro milhões de africanos, vinte vezes mais que o fluxo de escravos levados para a Argentina, estimado em cerca de 200 mil. As características da exploração econômica dos dois países podem explicar esta disparidade do tráfico de escravos trazidos da África, as "plantations" do Brasil demandando grande volume de mão de obra, muito superior à necessidade da atividade pecuária que constituiu a base da economia da Argentina.

Numa conta aproximada, baseada nos Censos dos dois países, em 1869, pouco depois da abolição da escravidão na Argentina, o país tinha cerca de 304 mil afrodescendentes (16,6% do total). Enquanto isso, em 1872 (primeiro Censo Demográfico do Brasil), a população brasileira de escravos e afrodescendentes chegava a 5,74 milhões de pessoas (58% do total de brasileiros).

Com uma diferença tão grande na população de origem africana, os dois países promoveram, ao longo do século XIX e XX, uma imigração de europeus de larga escala. A Argentina, recebeu mais de três milhões de imigrantes europeus, quase dez vez mais que a população de afrodescendentes que viviam no país. E o Brasil, que tinha, na época, quase seis milhões de afrodescendentes, recebeu cerca de 5 milhões de europeus, aproximadamente um milhão a menos.

Essa enorme diferença na proporção de imigrantes brancos e afrodescendentes explica a distinta formação social e étnico-cultural dos dois países. A quase ausência de negros na população da Argentina decorre d intensa imigração europeia (mais de três milhões) frente a um contingente pequeno de descendentes dos escravos negros (304 mil).

Nada do que foi exposto acima nega a existência de racismo na Argentina, da mesma forma que não inocenta o Brasil desta prática desprezível. Mas pode ajudar a compreender melhor as especificidades da formação econômica e social da Argentina e do Brasil, de modo a evitar as generalizações e os estereótipos que deturpam e prejudicam as relações entre as duas nações.

Sérgio C. Buarque, economista

 

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