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Meio ambiente também é questão de gênero?

A agenda climática precisa incorporar as mulheres como agentes centrais na formulação e implementação das políticas públicas..............

Por Thais Amorim Publicado em 05/08/2026 às 16:32

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A formação de lideranças femininas e o empoderamento de comunidades locais auxiliam na construção de políticas ambientais mais eficazes e na proteção do meio ambiente.
Culturalmente, atribuiu-se às mulheres uma relação intrínseca, e até mística, com a natureza. Foram elas que dominaram desde os saberes tradicionais de cultivo de alimentos e uso de plantas medicinais até a manutenção da vida em comunidade. Nos anos 1970, ativistas feministas iniciaram o debate de como a exploração dos corpos e a supressão dos direitos das mulheres estariam estreitamente relacionados à degradação do meio ambiente. Para além de uma ideia de “sagrado feminino”, hoje a pauta é urgente: as mulheres são desproporcionalmente mais afetadas por fenômenos ambientais, sobretudo por eventos climáticos extremos.
Dados apontam que 70% do total de pessoas em situação de pobreza no mundo são mulheres. A vulnerabilidade socioeconômica escancara outras mazelas sociais que tornam ainda mais dura a realidade de mulheres negras, trans, chefes de família e periféricas, que tendem a viver em locais suscetíveis a desastres, como enchentes e deslizamentos de barreiras. Mulheres indígenas e quilombolas também sofrem com o impacto da devastação ambiental em suas comunidades, através de secas e da degradação da fauna e da flora, além da perda de terras devido à exploração predatória.
O acesso à água potável e ao saneamento básico é outra questão latente relativa ao gênero. Levantamentos da Organização das Nações Unidas (ONU) mostram que cerca de 1,8 bilhão de pessoas não têm acesso contínuo à água potável em suas casas, sendo que dois terços desse total são mulheres responsáveis pela coleta de água. Ainda, um relatório da Agência Águas do Nordeste (ANA) identificou que 44,7 milhões de mulheres vivem em domicílios sem acesso à coleta e tratamento de esgoto no Brasil, localizados, em sua maioria, na região Nordeste.
No contexto local, essa vulnerabilidade é evidente. Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), o Recife ocupa a 16ª posição entre as cidades mais vulneráveis à mudança climática no mundo. Aqui, dos 1,5 milhão de habitantes, 206 mil vivem em áreas de risco.
O Plano Local de Ação Climática (PLAC), divulgado em 2020, traça estratégias de mitigação para os seguintes eventos ligados ao clima: inundações, deslizamentos, ondas de calor, doenças transmissíveis, seca meteorológica e aumento do nível do mar. Apesar de não divulgar dados desagregados por gênero, o plano considera como prioridade as populações mais vulneráveis, especialmente nas Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS). A grande maioria das metas estabelecidas no plano conta com a criação de grupos de trabalho para a construção de soluções eficazes; contudo, para isso, espera-se que levem em consideração a representação de gênero.
Essas estratégias de enfrentamento são necessárias, mas não suficientes. A emergência climática intensifica a necessidade de ampliar o espaço para lideranças femininas. Valorizar suas vivências e construir soluções comunitárias são condições essenciais para garantir formas mais justas de sobrevivência. A luta por justiça climática ressoa em diversas vozes em todo o estado. Um exemplo é o Ibura Mais Cultura, coletivo formado por moradores do bairro. O grupo desenvolve, entre outras iniciativas, oficinas de formação comunitária com mulheres, criando espaços de reflexão coletiva sobre os desafios do cotidiano e de planejamento de possíveis soluções para o enfrentamento às mudanças climáticas.
No litoral, as comunidades de marisqueiras lutam para garantir sua subsistência enfrentando diversos tipos de violência, inclusive de gênero. Foi o que o 3º Relatório de Conflitos Socioambientais em Comunidades Tradicionais Pesqueiras no Brasil (2025) constatou. Segundo o levantamento, 49% do total de trabalhadores da pesca artesanal são mulheres. Este grupo sofre principalmente com o avanço desenfreado de grandes empreendimentos privados, impactos de eventos naturais extremos, precarização e invisibilização do seu trabalho. Projetos como o Programa de Pesquisas Ecológicas de Longa Duração – Tamandaré Sustentável (PELD TAMS) integram a pesquisa científica à comunidade local, estimulando mulheres pescadoras e jovens a trabalharem juntos na conservação de ecossistemas marinhos.
Durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), sediada em Belém (PA), movimentos sociais e o governo brasileiro estruturaram o Plano de Ação de Gênero de Belém (2026–2034), alinhado aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da ONU, que reconhece a relevância das mulheres para a governança climática.
Porém, para a construção de políticas públicas eficientes, reforça-se a importância de dados desagregados por idade e gênero, bem como da participação de diferentes esferas do poder público e da sociedade civil, inclusive a participação das mulheres, na tomada de decisões.
Ao refletirmos sobre soluções, pode-se pensar na comunidade da Ilha de Deus, uma das maiores áreas de mangue urbano do Brasil, situada na zona sul do Recife. O território é um grande exemplo de como lideranças femininas podem ser peças fundamentais para a construção de políticas eficientes não só para as mulheres, como também para a população local e o meio ambiente. Além de resistirem a décadas de insegurança, à especulação imobiliária e a um panorama nada positivo em relação ao avanço do mar, as marisqueiras conquistaram melhores condições de habitação para a vila e se tornaram referência em turismo de base comunitária.
É preciso mais do que reconhecer as mulheres como grupo vulnerável; a agenda climática precisa incorporá-las como agentes centrais na formulação e implementação das políticas públicas. A inserção delas nesses espaços não envolve apenas sensibilizar, mas sim construir um ambiente de escuta ativa e formação que empodere comunidades locais e fortaleça as lideranças femininas, considerando seu alto poder de transformação social e de proteção do meio ambiente.

Thaís Amorim,  graduada e mestranda em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco. E-mail: thais.amorim@ufpe.br

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