Sem simpatia ou quase amor
Só há interesses e nenhuma boa "química" entre Chefes de Estado vai alterar os resultados de decisões comerciais e geopolíticas pré-definidas.
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O Governo Trump está decidido a acabar com o multilateralismo, parte essencial da ordem econômica internacional construída após a II Grande Guerra na qual os EUA tiveram um importante papel na sua formação. A globalização que disseminou os benefícios do progresso econômico, embora desigual, está se desestruturando. Já era evidente que os EUA estavam em lenta decadência com a impressionante emergência da China, o colapso do mundo soviético e o avanço de países que no passado foram erradamente classificados como "Terceiro Mundo". Trump e segmentos importantes da sociedade dos EUA, a maioria deles republicanos, perceberam esse declínio e criaram o movimento MAGA para fazer a América grande de novo. O Governo Trump quer retomar a hegemonia norte-americana por meio de ações unilaterais, ignorando as instituições internacionais, como as Nações Unidas e os organismos que fazem parte do seu sistema como a OIT, OMS, OMC, etc., e nacionais como o Congresso e o Judiciário.
A principal arma tem sido as tarifas, aplicadas, inicialmente, de forma massiva em abril de 2025 a dezenas de países, aliados ou não. A Suprema Corte dos EUA, todavia, deliberou que não havia base legal para tal imposição. Numa reviravolta, o Governo Trump buscou esses fundamentos na legislação do país sobre práticas "danosas" ao comércio (Seções 301 e 122 da Lei de Comércio de 1974; Seção 232 da Lei de Expansão Comercial de 1962) e, com base nela, voltou a impor tarifas a vários países, inclusive ao Brasil.
No caso do Brasil, em um ambiente polarizado ideologicamente e com a proximidade das eleições, a família Bolsonaro cometeu erro politicamente crasso não só ao advogar medidas contra o Executivo e Judiciário brasileiros (aplicação da Lei Magnitsky), mas também a de, inicialmente, apoiar as imposições de tarifas pedindo que elas só fossem aplicadas após as eleições. Trump imporia as tarifas de qualquer forma por conta dos interesses comerciais dos EUA e pelo alinhamento ideológico ao bolsonarismo. Não era necessário que Flávio e Eduardo Bolsonaro fossem demandar essa intervenção à Casa Branca. O fato revelou uma postura favorável da família à ingerência dos EUA nos assuntos internos brasileiros, comerciais e políticos, que foi mal recebida por atores políticos e pela sociedade civil, inclusive por segmentos empresariais mais nacionalistas.
Houve exceções ao tarifaço, não por causa das negociações realizadas pelo governo brasileiro e por lideranças empresariais. As exceções atendem aos interesses dos EUA vez que os bens isentos são necessários ao bom funcionamento de setores da economia dos EUA, inclusive para que não cause impacto inflacionário. As isenções foram concedidas não por mérito dos nossos negociadores, mas porque atendem aos interesses comerciais dos EUA.
Consumado o fato, com tarifas acumuladas, em muitos casos de 37,5%, houve um clamor por retaliação com base na Lei de Reciprocidade recentemente aprovada pelo Congresso Nacional. A economista Monica de Bolle, do Peterson Institute for International Economics, sugeriu que o Brasil retaliasse tarifando a pauta de bens de interesse da economia estadunidense, o que hipoteticamente forçaria os EUA a negociarem as tarifas impostas aos demais. Seria uma guerra comercial entre duas economias de tamanhos substancialmente diferentes onde as perdas brasileiras seriam muito maiores. É melhor, portanto, deixar como está. Além disso, não adianta tentar negociar a não ser como ato simbólico, pois a decisão do Governo Trump é politicamente voluntarista. Cabe ao Brasil buscar novos mercados para suas exportações.
Na negociação entre países não há simpatia ou quase amor. Só há interesses e nenhuma boa "química" entre Chefes de Estado vai alterar os resultados de decisões comerciais e geopolíticas pré-definidas. O Governo americano defende com clareza suas motivações, inclusive que a América Latina se torne seu quintal e que tenha governos de direita subservientes aos seus interesses hegemônicos. Este é o objetivo da Doutrina Trump à qual o Brasil não deve se curvar, nem eleger políticos aliados com este propósito.
Jorge Jatobá, doutor em Economia, professor titular da UFPE, ex-Secretário da Fazenda de Pernambuco, membro do Conselho de Honra do LIDE-PE e do Comitê de Business Affairs da AMCHAM, sócio da CEPLAN- Consultoria Econômica e Planejamento