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O Brasil diante do El Niño: desafios para a agricultura, o ambiente e a saúde

Quando se fala em saúde humana, os impactos incluem desidratação, exaustão térmica e agravamento de doenças cardiovasculares e respiratórias

Por Ana Benko Publicado em 04/08/2026 às 22:10

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O El Niño é um fenômeno climático natural caracterizado pelo aquecimento anômalo das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, capaz de alterar os padrões atmosféricos em escala global. No Brasil, seus efeitos são heterogêneos, provocando secas em algumas regiões e chuvas intensas em outras. Nas últimas décadas, evidências científicas indicam que seus impactos vêm sendo potencializados pelas mudanças climáticas de origem antropogênica (ou seja, provocadas pelo ser humano), decorrentes da emissão de gases de efeito estufa, do desmatamento e de mudanças no uso da terra. Tais gases intensificam a ocorrência de eventos extremos, ampliando seus efeitos sobre os ecossistemas, a agricultura, os recursos hídricos e a saúde humana.

Na agricultura brasileira, os impactos variam entre as regiões. No Norte e em parte do Nordeste, há redução das chuvas, prolongamento da estação seca, menor umidade do solo e maior risco de incêndios, comprometendo culturas como milho, feijão, mandioca e frutíferas, além da indisponibilidade de água para irrigação e pecuária. No Semiárido, a escassez hídrica reduz a produtividade e ameaça a segurança alimentar. Em contrapartida, o Sul costuma registrar chuvas acima da média, favorecendo enchentes, erosão do solo e doenças fúngicas em culturas como soja, trigo, arroz e uva. Mesmo quando há precipitação suficiente, sua distribuição irregular pode comprometer o desenvolvimento das plantas.

A pecuária também sofre com a redução das pastagens, queda na produção de leite, carne e ovos, aumentando da incidência de enfermidades. Além disso, mudanças climáticas favorecem a expansão de doenças e pragas agrícolas e de insetos vetores, elevando os custos de produção.

Na saúde humana, os impactos incluem desidratação, exaustão térmica e agravamento de doenças cardiovasculares e respiratórias. Em áreas sujeitas a enchentes, cresce a incidência de leptospirose, hepatite A e gastroenterites. Já a alternância entre seca e chuvas intensas favorece a proliferação do mosquito Aedes aegypti, ampliando a transmissão de Dengue, Chikungunya e Zika.

A ação humana amplia esses efeitos. O desmatamento reduz a evapotranspiração, enfraquece os "rios voadores" e altera o regime de chuvas, enquanto o aumento dos gases de efeito estufa eleva a temperatura média do planeta, tornando secas, ondas de calor e chuvas intensas mais frequentes e severas.

Diante desse cenário, são fundamentais estratégias de adaptação e mitigação, como o uso de cultivares tolerantes ao calor e à seca, manejo conservacionista do solo, irrigação eficiente, monitoramento climático, fortalecimento da vigilância epidemiológica, controle de vetores e garantia do abastecimento de água. Também é essencial reduzir as emissões de gases de efeito estufa, conservar as florestas e promover o uso racional da água. A integração entre ciência, políticas públicas e participação da sociedade é indispensável para reduzir a vulnerabilidade do Brasil e do planeta frente a um clima cada vez mais extremo.

Ana Benko – Bióloga. Dra. em Ciências Naturais. Professora Titular da UFPE e membro da Academia Pernambucana de Ciências

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