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Herança pode incentivar acomodação

Patrimônio pode ser herdado; competência, responsabilidade e propósito precisam ser ensinados..............................................

Por CLÁUDIO SÁ LEITÃO Publicado em 15/07/2026 às 0:00 | Atualizado em 15/07/2026 às 10:33

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A herança é uma das maiores demonstrações de amor que os pais podem oferecer aos filhos. Representa um dos mais legítimos instrumentos de transferência patrimonial entre gerações e simboliza o esforço, a capacidade empreendedora e o desejo de proporcionar segurança financeira aos descendentes. Entretanto, esse legado também pode transformar-se em um desserviço quando substitui a formação pelo conforto e o mérito pela simples expectativa de riqueza.

Surge, então, uma reflexão inevitável: a herança, quando mal conduzida, pode incentivar a acomodação dos herdeiros? A expectativa de receber um patrimônio expressivo pode reduzir o estímulo ao estudo, ao trabalho, ao empreendedorismo e ao desenvolvimento de competências. Quando a sucessão patrimonial é percebida como garantia permanente de conforto, parte da motivação para construir uma trajetória própria tende a enfraquecer, aumentando o risco da perda do patrimônio ao longo das gerações.

Contudo, a herança, por si só, não é a causa da acomodação. O fator decisivo costuma ser a educação familiar. Famílias que valorizam disciplina, responsabilidade, ética e meritocracia normalmente formam sucessores preparados para administrar e ampliar o patrimônio recebido, em vez de apenas usufruí-lo. Nesse contexto, o planejamento sucessório vai muito além das questões jurídicas e tributárias. Ele deve comtemplar a preparação dos sucessores para o exercício responsável da propriedade, da gestão e da tomada de decisões.

Afinal, preservar um patrimônio costuma ser muito mais desafiador do que construí-lo. A governança familiar, os protocolos de família, os acordos entre herdeiros e os programas de educação financeira, constituem instrumentos essenciais para reduzir conflitos, fortalecer o compromisso das novas gerações e assegurar a continuidade dos negócios familiares. Patrimônio sem preparo pode ser rapidamente dissipado, patrimônio aliado ao conhecimento tende a prosperar por várias gerações.

Assim, a herança não produz acomodação automaticamente. Ela apenas potencializa os valores e comportamentos cultivados ao longo da vida. Quando acompanhada de educação, exemplo e boa governança, deixa de ser um fator de dependência para tornar-se um instrumento de continuidade, desenvolvimento e geração de riqueza. Além disso, a herança constitui uma poderosa ferramenta econômica e social.

Quando bem administrada, possibilita a continuidade e a expansão de empresas familiares, viabilizando novos empreendimentos e investimentos estratégicos que promovem o crescimento individual e coletivo. Por outro lado, quando mal administrada, a transferência patrimonial pode incentivar a acomodação dos herdeiros, enfraquecer o espírito empreendedor e comprometer o desenvolvimento pessoal.

Em muitos casos, ainda desencadeia disputas familiares, em torno de bens herdados, gerando ressentimentos profundos, rompendo relações e dilapidam fortunas construídas com enorme dedicação pelo criador de patrimônio (wealth creator). Em síntese, o maior desafio da herança não é transferir bens, mas transmitir valores. Patrimônio pode ser herdado; competência, responsabilidade e propósito precisam ser ensinados.

Cláudio Sá Leitão, conselheiro de Empresas e CEO da Sá Leitão Auditores e Consultores

 

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