O que a derrota nos ensina sobre nós mesmos?
A maturidade é entender que, mais do que sonhar com um título mundial a cada quatro anos, importa ter melhores indicadores socioeconômicos
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O Brasil perdeu. A sensação que dá é que todos nós perdemos juntos. Nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026, diante da Noruega, a seleção que carrega o peso de cinco títulos mundiais voltou para casa mais cedo do que o orgulho nacional gostaria de admitir. Mas talvez a pergunta mais interessante não seja por que perdemos, e sim o que uma derrota como esta revela sobre o tempo em que vivemos. Há uma coincidência que vale a pena examinar com cuidado. O Brasil ficou 24 anos sem conquistar uma Copa do Mundo antes de 1994. Uma “seca” que atravessou ditadura, redemocratização e as primeiras tentativas, ainda hesitantes, de estabilizar a economia.
Em 1994, o Brasil foi tetra, tetra, é tetra. Quem não lembra dessa narração? Vencemos, paralelamente, uma batalha ainda mais decisiva: a hiperinflação que corroía salários, contratos e a própria noção de futuro. O Plano Real, lançado naquele mesmo ano, consolidou um pacto social mínimo, garantindo a promessa de que o dinheiro no bolso valeria a mesma coisa amanhã. A partir dali, o país reduziu a pobreza, desconcentrou renda e assumiu uma posição de destaque entre as maiores economias do mundo.
O ano de 2002 nos deu o penta. Veio rápido, com menos de duas Copas de intervalo desde 1994, e foi conquistado por uma geração que ainda parecia carregar uma necessidade de se tornar imortal vestindo a camisa da seleção brasileira. Pouco importava, naquele momento, o que aqueles jogadores já haviam conquistado em seus clubes. A consagração definitiva ainda passava pelo Brasil. Nasci em 1986. Não vi, portanto, os títulos de 1958, 1962 e 1970. Mas, olhando em retrospecto, é difícil não perceber que havia, naquelas gerações, uma relação diferente com a camisa canarinha. Pelé, Garrincha, Tostão e tantos outros pareciam jogar por algo que não cabia no contrato, no salário ou na carreira individual. A Copa era o centro do mundo. Vencê-la era a própria definição de grandeza.
Não quero reduzir patriotismo à economia, nem transformar futebol em uma tese sobre incentivos financeiros. Mas talvez seja impossível separar completamente uma coisa da outra. O que perde, de fato, um Vinicius Jr., um Neymar ou um Bruno Guimarães ao não vencer uma Copa do Mundo? Perdem a taça, é claro. Perdem a chance de entrar em uma galeria muito específica da memória nacional. Mas não perdem fortuna, visibilidade, contratos, seguidores ou relevância global. A derrota dói, mas não os condena ao esquecimento.
O que Pelé, Garrincha e Tostão ganharam vencendo uma Copa? O legado da eternidade. Tornaram-se personagens de uma história coletiva, não apenas atletas bem-sucedidos. Foram incorporados à memória afetiva do país. Talvez eu esteja sendo saudosista. Talvez romântico. Mas, tendo assistido à última geração campeã mundial, a de 2002, parece-me que ela marcou também o fim de uma era. Foi a derradeira geração em que o jogador de futebol ainda não exercia uma segunda profissão: a de influenciador. Os salários já eram altos, sem dúvida. Mas não pareciam tão astronômicos a ponto de competir com o desejo de consagração nacional.
A seleção brasileira, antes, oferecia aquilo que nenhum clube europeu, nenhuma marca esportiva e nenhum contrato publicitário - inclusive de bets - podiam oferecer: a imortalidade diante de seu próprio povo. Hoje, talvez ainda ofereça, mas já não está claro se todos a desejam com a mesma urgência. A tirar pelo número de carrinhos e bolas divididas, não me parece que existia alí a disposição de transformar a carreira em legado. Para saber a diferença, basta ver como foi o jogo do Paraguai contra a França.
Apesar dos meus filhos, de 05 e 08 anos, ainda não puderem assistir ao Brasil campeão da Copa do Mundo, vislumbro um desenvolvimento institucional. A educação e trabalho serão as únicas ferramentas de mobilidade social e, por conseguinte, de real reconhecimento mundial e de patriotismo. A maturidade em entender que o mais importante do que a cada quatro anos, sonharmos por um título mundial, deve ser o de a cada quatro anos termos indicadores socioeconômicos melhores. Isso é mais forte do que qualquer taça FIFA. Dados mostram que o nível de desenvolvimento humano do Brasil hoje não amarra a chuteira da Noruega em 1990. A diferença é abissal.
Não quero “demonizar” o futebol e nossa alegria em acompanhar o esporte mais popular do mundo. A cada quatro anos, a Copa do Mundo coincide com eleições majoritárias no plano federal e estadual. Talvez sejam essas, mais do que os placares em campo, as verdadeiras balizas pelas quais deveríamos medir o avanço ou a estagnação do país. Trata-se, antes, de reconhecer que o jejum atualmente suportado pela seleção brasileira diz algo sobre nós. Ele revela menos uma crise de talento e mais uma crise de projeto.
E o que há de comum nestes 24 anos? O Brasil segue sendo uma potência em promessa, mas um país ainda desafiante no ambiente de negócios, na produtividade, na qualidade dos serviços públicos e na capacidade de fazer o recurso chegar, com eficiência, à vida concreta das pessoas. Continuamos capazes de produzir grandes talentos individuais, mas nem sempre instituições à altura deles.
Quanto à Noruega, que viva agora a sua fantasia de Copa do Mundo. Mas que também não se esqueça de que nenhuma vitória esportiva suspende os desafios do mundo contemporâneo. A Europa, como o Brasil, também terá de responder às suas próprias crises. No fim, talvez seja esta a grande lição: países não se tornam grandes apenas quando vencem torneios. Tornam-se grandes quando aprendem o que fazer entre uma Copa e outra.
João Mattos - Advogado e CEO Oncorp
Dalson Figueiredo - Professor do Departamento de Ciência Política da UFPE e bolsista de produtividade do CNPq.