Pátria das BETs, mas não para João Gomes
É muito triste ver jogadores se convertendo em maus exemplos para sua gente.......................................................
Clique aqui e escute a matéria
Um dia foi considerada pátria de chuteiras, agora passou a ser o paraíso das BETs. Triste espetáculo dos milionários jogadores de futebol do Brasil vendendo ilusões de apostas e ganhando mais alguns milhões às custas de maior empobrecimento do povo do seu país. Chamam de BET, sem a devida tradução, evitada para fugir do significado mais apropriado que seria: entrar em uma roubada, em vício, prejuízo, inadimplência ou esquema de lavagem de dinheiro. A ideia de não traduzir deve ter sido proposital porque, como BET não significa nada para maioria e os ricos astros do futebol recomendam, pensam ser coisa boa. Basta observar o que gastam em publicidade para entender o quanto ganham, de onde vem e para onde vai o lucro.
É muito triste ver jogadores que se destacaram porque nasceram com o dom da ginga para o futebol, se convertendo em maus exemplos para sua gente, principalmente para os que tiveram a mesma origem, um tipo de traição aos seus, enganadores que são.
Poderiam aproveitar seus canais para alertar sobre os riscos e danos, para deixar claro que a dependência em apostas esportivas ocorre por muitos mecanismos neurobiológicos e que a expectativa de recompensa estimula até mais do que a recompensa em si. O apostador sabe que a maioria perde, mas alguns ganham, havendo um reforço intermitente potente, capaz de criar o comportamento compulsivo. O cérebro interpreta o quase ganhei como um estímulo semelhante ao ganho real, levando à novas apostas.
Todo mundo acha que entende de futebol e que, por entender, está no controle com mais chance de ganhar, mas as probabilidades matemáticas dizem o contrário. Quando perde, vem à mente "a vitória vai chegar, é só uma fase ruim" ou "vou recuperar o que perdi".
Depois de estabelecida a dependência, ocorre redução do controle inibitório do córtex cerebral gerando impulsividade e dificuldade de parar apesar dos prejuízos financeiros e sociais.
Enquanto isso as plataformas, estando disponíveis 24 horas por dia com rapidez no processamento e apostas on-line, estimulam muito mais do que outros tipos de cassino. O "transtorno do jogo" está codificado no CID como doença mental, tal qual ocorre com álcool ou cocaína. Promovendo uma doença, a nossa seleção não parece ter a noção exata da sua importância fora dos gramados e, para muitos, parece que basta um bom contrato com o clube europeu e com as BETs. Pobres ricos que são.
Ainda bem que o futebol é dos poucos esportes em que o time inferior pode vencer. É a chance do Brasil. Se acontecer, esqueceremos tudo e passaremos a classificar o jogo lento e início morno como planejados, a falta de criatividade como parte da tática, o machucado como sendo estratégia do jogo sem nada a ver com as madrugadas animadas. Vamos lá Brasil, joga que dá.
O país, como sempre, calçou as chuteiras e entrou em campo querendo um momento de alegria. Não merece só aposta de gol contra o seu povo.
Nessa copa, quem está ganhando é a CAZÉ TV, aliás, lamentavelmente, também com patrocínio de BETs.
Enquanto isso, a festa de São João no Nordeste também foi patrocinada por BETs em quase todo lugar. Um abraço no João Gomes, craque em todas as posições e dos poucos que, recusando convites para fazer propaganda enganosa de casas de apostas, deixou de faturar alguns milhões, mas tem conquistado o respeito e carinho do país, sem precisar vender a alma.
A copa já é sua João, está jogando um bolão. Solta a potência da voz aos quatro cantos: "aposta não neném, garante o futuro com gol de letra, compra um quilo de feijão, um caderno e uma caneta".
Sérgio Gondim, médico