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Ataques de tubarão e responsabilização: o que o caso de Woodrow Wilson tem a nos ensinar

Em Pernambuco, o problema é conhecido, persistente e administrado, mas tem uma história ambiental complicada.................................

Por Alan Cavalcanti, Maria Cecília França e Daniel DaherJ Publicado em 26/06/2026 às 13:45 | Atualizado em 30/06/2026 às 13:06

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Durante o verão de 1916, ano em que Woodrow Wilson tentava a reeleição à presidência dos Estados Unidos, turistas lotaram o litoral de Nova Jersey para fugir do calor das cidades e aproveitar o feriado de 4 de julho. Foi então que o jovem Charles Vansant, que nadava em Beach Haven, foi atacado por um tubarão e morreu de hemorragia pouco depois. Cinco dias mais tarde, o nadador Charles Bruder teve o mesmo destino em Spring Lake, a 70 quilômetros dali. Dias depois, um tubarão matou um menino num riacho a cerca de três quilômetros do mar aberto, e também o jovem que mergulhou para recuperar o corpo. Foram quatro mortes em doze dias, a mais grave sequência de ataques fatais de tubarões da história americana.
O efeito sobre a temporada foi imediato: reservas de hotel canceladas às centenas, manchetes alarmadas em jornais de todo o país, campanhas de caça aos tubarões com recompensas e redes de aço instaladas nas praias. O presidente Wilson tentou agir: reuniu o gabinete e acionou a Guarda Costeira. Mas o diagnóstico oficial foi que havia pouco a fazer. Os ataques cessaram por conta própria semanas depois.
Embora os americanos tenham reeleito Wilson em novembro, ele perdeu apoio nos condados litorâneos de Nova Jersey, justamente os marcados pelos ataques. Quase um século depois, o episódio se tornou um caso clássico da Ciência Política no artigo “Blind Retrospection: Electoral Responses to Drought, Flu, and Shark Attacks”, de Christopher Achen e Larry Bartels.
A teoria do voto retrospectivo, em sua versão otimista, supõe que o eleitor recompensa ou pune o governo conforme aquilo que ele de fato faz. Achen e Bartels mostram que as coisas não são bem assim. Boa parte do eleitorado pratica o que eles chamam de “retrospecção cega”: pune quem está no poder até por eventos que nenhum governo poderia evitar, como secas, enchentes, epidemias e, no caso mais famoso, ataques de tubarão.
Os exemplos reunidos pelos autores atravessam séculos. A Peste Negra, no século XIV, desacreditou governantes, padres e sábios da Europa, acusados de falhar em proteger o bem comum. Secas e más colheitas ajudam a explicar a ascensão do populismo agrário em Nebraska e no Kansas no fim do século XIX. Em nenhum desses casos os eleitores achavam que o governo controlava as colheitas, as pragas ou o clima. Ainda assim, votaram como se controlasse.
Esses eventos também são úteis por uma razão metodológica, e vale a pena entender por quê. Em geral, é muito difícil separar duas coisas que costumam andar juntas: o eleitor que pune um governo por uma falha real e o eleitor que pune por puro reflexo, sem que o governo tenha culpa de nada. Um ataque de tubarão ajuda a distinguir as duas. Como ninguém em sã consciência imagina que um presidente provoca ou impede um ataque, qualquer voto perdido depois do desastre revela, quase em estado puro, essa punição “cega”. Se o eleitorado de fato pesasse as responsabilidades com cuidado, deveria ser indiferente a um acaso como esse. Não é o que acontece: Achen e Bartels calculam que os ataques de 1916 custaram a Wilson cerca de três pontos percentuais nos condados litorâneos, e quedas de 9 a 11 pontos nas cidades onde houve mortes.
O mesmo erro de atribuição aparece em outros contextos. O economista Justin Wolfers mostrou que os eleitores tendem a recompensar governadores quando o preço do petróleo sobe e a puni-los quando cai, como se um governo estadual mandasse no mercado internacional. A lógica é a mesma: parte do eleitorado não separa o que o governo controla daquilo que está fora de seu alcance.
Nos últimos dias, o litoral pernambucano registrou dois ataques em menos de 24 horas. No domingo, 31 de maio, médicos amputaram a perna de um menino de 11 anos após um ataque na Praia de Piedade, em Jaboatão dos Guararapes. Na manhã seguinte, em Boa Viagem, no Recife, um tubarão mordeu a perna de uma jovem de 19 anos, a 84ª ocorrência no estado desde 1992, quando o Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (Cemit) começou o registro sistemático. A série já soma 27 mortes.
O caso pernambucano, porém, é diferente do de Wilson. Em Nova Jersey, a força do argumento estava na ausência quase total de responsabilidade do governo: os ataques foram raros, inesperados e não dependiam de decisão pública alguma. Até hoje não há consenso sequer sobre qual espécie de tubarão esteve por trás da sequência de 1916. Sabe-se apenas que aquele verão juntou, por acaso, os ingredientes de uma tragédia: uma onda de calor, uma epidemia de poliomielite que empurrou multidões para o litoral e a presença incomum de banhistas e tubarões numa costa onde ataques eram raríssimos. Nada disso passava por Wilson.
Em Pernambuco, o problema é conhecido, persistente e administrado, mas tem uma história ambiental complicada. A principal hipótese científica liga a concentração anômala de ataques a transformações no ambiente provocadas pela ação humana. Costuma-se apontar, em especial, a construção do Complexo Portuário de Suape, a partir dos anos 1980, que alterou estuários, manguezais e canais usados por espécies como o tubarão-cabeça-chata e o tubarão-tigre. Aqui, ao contrário de Nova Jersey, existe uma cadeia de responsabilidade possível, ainda que longa, técnica e espalhada no tempo.
É por isso que Pernambuco funciona menos como repetição do exemplo americano e mais como contraponto. Punir Wilson era responsabilizar alguém por algo a que ele não tinha qualquer ligação. Cobrar o poder público em Pernambuco é outra coisa: aqui há, de fato, responsabilidade humana por trás do problema. O risco de erro é mais sutil, não está em enxergar responsabilidade onde não há, mas em mirar a responsabilidade errada.
Ajuda pensar em três camadas. Há uma camada de origem, ligada às decisões que ajudaram a criar ou agravar o risco. Há uma camada de manutenção, ligada ao modo como sucessivos governos lidaram com ele ao longo dos anos. E há uma camada de resposta imediata, ligada ao que a gestão atual faz, ou deixa de fazer, diante de uma ameaça já conhecida. O voto, instrumento de alcance curto, raramente consegue separar essas camadas, e tende a jogar todas sobre o governo do momento.
Nada disso torna ilegítimo cobrar os governos atuais. Pelo contrário: prevenir, sinalizar, fiscalizar e monitorar riscos conhecidos são deveres permanentes do poder público. Quando uma administração abandona a prevenção, interrompe pesquisas ou falha na sinalização, a cobrança não tem nada de “cega”, é o funcionamento normal da democracia. Em Pernambuco, aliás, há placas de aviso, áreas interditadas e campanhas de orientação, sinal de que esse trabalho, em alguma medida, é feito.
Talvez seja essa a lição mais útil que os tubarões oferecem. Contra os ataques de 1916, faltava a Wilson qualquer culpa, e o problema do eleitor era inventar uma. No litoral pernambucano, a culpa, se existe, não está num único ato nem num único governo, mas diluída em décadas de obras, omissões e políticas que avançam e recuam. As mortes ligadas aos ataques marcam profundamente as vítimas e suas famílias e impõem um desafio permanente à administração pública. Levar a sério um problema assim exige menos transformar a tragédia em curiosidade eleitoral e mais encarar aquilo que Achen e Bartels já apontavam: a dificuldade, muito humana, de reconstruir a cadeia de causas que liga o nosso sofrimento às decisões que o produziram.


Alan Cavalcanti, Maria Cecília França e Daniel Daher
Cientistas políticos pela Universidade Federal de Pernambuco

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