O verdadeiro sentido do São João
A cultura não se preserva por acaso. Ela se mantém viva quando escolhemos o que ouvimos, o que celebramos e quais valores desejamos transmitir...
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Eu amo o São João. Digo, sem qualquer dúvida, que é a melhor festa do ano. Amo a comida, a dança, a música, a fogueira acesa na noite de junho e tudo aquilo que ela simboliza. Mas o que mais me encanta nessa celebração é algo que vai além dos sentidos: o São João é, acima de tudo, uma festa de encontro, de afeto e de fraternidade.
O ciclo junino faz parte da nossa identidade nordestina. Ele reúne famílias, aproxima gerações e mantém vivas tradições que atravessam o tempo. Celebramos São João Batista, honramos nossos costumes, revisitamos memórias da infância e renovamos um sentimento coletivo de comunidade que é tão próprio do nosso povo.
No entanto, nos últimos anos, temos assistido, pouco a pouco, um enfraquecimento de alguns dos rituais e valores que sempre deram sentido a essa festa. Em meio às transformações culturais e à lógica do mercado do entretenimento, muitas vezes o que ganha mais espaço são conteúdos que banalizam relações humanas, objetificam as mulheres e promovem excessos como se fossem sinônimos de diversão.
Por isso, me chamou atenção uma reflexão recente sobre o fenômeno de João Gomes. Seu enorme sucesso demonstra algo importante: é possível mobilizar multidões sem estar associado à embriaguez, à hipersexualização ou a letras que constrangem e agridem. Seu trabalho, assim como o de tantos outros artistas, revela que a autenticidade, a simplicidade e o respeito às nossas raízes ainda encontram profundo eco no coração das pessoas.
E é justamente aqui que quero fazer um registro de gratidão e reconhecimento às mulheres e aos homens que seguem sendo verdadeiros guardiões da cultura nordestina. Cantoras, cantores, compositoras e compositores que, muitas vezes sem ocupar os maiores espaços de mídia ou receber os cachês mais altos, permanecem firmes na missão de preservar a essência do nosso forró.
São artistas que nos oferecem uma música que não constrange, que não diminui ninguém, que convida à dança, ao encontro e à celebração da vida. São vozes que mantêm viva uma tradição construída por gerações e que continuam a nos lembrar quem somos.
Penso em nomes como Jorge de Altinho, Santana e Petrúcio Amorim, dentre tantos outros, que embalaram tantas infâncias nordestinas, inclusive a minha. Penso também em mulheres extraordinárias como Irah Caldeira, Elba Ramalho e Nena Queiroga, e tantas outras que carregam em suas trajetórias a força, a poesia e a beleza da nossa cultura.
Precisamos exaltar esses artistas. Precisamos consumi-los, apoiá-los e garantir que suas músicas sejam ouvidas não apenas em junho, mas durante todo o ano. Defender o São João é também defender uma visão de mundo que valoriza a família, o respeito, a convivência e a memória coletiva.
A cultura não se preserva por acaso. Ela se mantém viva quando escolhemos o que ouvimos, o que celebramos e quais valores desejamos transmitir às próximas gerações. Que as fogueiras juninas continuem iluminando nossas noites e, sobretudo, nossa consciência de que proteger a cultura nordestina é proteger parte essencial de quem somos.
Isabella de Roldão, secretária de Trabalho e Qualificação Profissional do Recife