Não tirem a alma do São João
A polêmica em torno da exclusão de artistas nordestinos das grades dos grandes festejos juninos não se resume a uma disputa por espaço nos palcos.
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O que está em jogo é algo muito maior: a preservação da identidade cultural do Nordeste. Quando gestores públicos priorizam atrações desvinculadas da tradição junina, promovem um processo silencioso de descaracterização de uma das mais importantes manifestações culturais brasileiras. O São João não nasceu como um festival genérico de entretenimento. É resultado de séculos de construção histórica, social e afetiva.
A festa junina reúne religiosidade popular, dança, poesia, gastronomia, tradições familiares e o espírito de celebração da colheita. O forró, o baião, o xote e o xaxado não são meros estilos musicais inseridos na programação: constituem a própria alma da festa. Retirá-los do centro das comemorações equivale a esvaziar seu significado. Costuma-se justificar essa mudança com o argumento de que artistas famosos — que exigem elevados cachês — são contratados porque "é deles que o povo gosta". A explicação, porém, é simplista.
O discutível gosto popular não surge espontaneamente. Ele é fortemente influenciado pelos meios de comunicação, pelas plataformas digitais e pelos vultosos investimentos em marketing. As pessoas tendem a consumir aquilo que lhes é oferecido de forma contínua e massiva. Por isso, a falta de apoio aos artistas locais produz um círculo vicioso: sem espaço, eles não alcançam visibilidade; sem visibilidade, não conquistam novos públicos; e, sem público, tornam-se ainda mais excluídos das programações oficiais.
Como esperar que as novas gerações se encantem com a sanfona, o triângulo e a zabumba se raramente têm a oportunidade de ouvi-los? A incoerência torna-se ainda mais evidente quando observamos outras regiões do país. A Festa do Peão de Barretos, em São Paulo, a Oktoberfest de Blumenau, em Santa Catarina, a Festa da Uva, no Rio Grande do Sul, e o Festival Folclórico de Parintins, no Amazonas, preservam com zelo suas características culturais. Ninguém cogita substituir suas tradições por atrações alheias à identidade desses eventos. A valorização das raízes locais é compreendida como proteção do patrimônio cultural, e não como obstáculo à modernidade.
Por que, então, o Nordeste deveria abrir mão daquilo que o torna singular? Preservar o São João não significa rejeitar a diversidade cultural nem impedir a participação de outros gêneros musicais. Significa apenas reconhecer que uma festa tradicional deve ter como protagonista maior a cultura que lhe deu origem. Para isso, é necessário transformar a valorização da cultura nordestina em política pública permanente. O incentivo aos grupos de forró, aos repentistas, cordelistas, quadrilhas juninas e artistas populares não pode se restringir ao mês de junho.
Uma iniciativa inspiradora são os Centros de Tradições Gaúchas, que ajudam a manter vivas as manifestações culturais do Sul ao longo de todo o ano. O Nordeste também precisa criar e fortalecer Centros de Tradições Nordestinas, dedicados à música, à dança, ao repente, ao cordel, ao artesanato e à gastronomia regional. Igualmente importante é o papel da escola. Ensinar a história, a cultura e as tradições nordestinas desde a infância é cultivar o sentimento de pertencimento e fortalecer a autoestima de um povo.
Quem aprende a valorizar suas raízes cresce mais consciente de sua identidade e menos vulnerável à uniformização cultural. Proteger o São João é mais do que preservar uma festa. É defender a memória, a história e a alma de uma região que ajudou a construir o Brasil. Quando a sanfona perde espaço em sua própria festa, não é apenas um gênero musical que se enfraquece: é a própria memória cultural do Nordeste que corre o risco de silenciar. —————— *
Joel de Hollanda , economista, foi secretário de Educação no Governo Marco Maciel, deputado estadual, deputado federal e senador da República.*