Tarifas, sanções e pragmatismo: episódio Trump–Flávio Bolsonaro e relação Brasil–Estados Unidos
Enquanto o debate nacional permanece na busca de culpados, os EUA concentra-se em algo mais simples: a defesa de seus próprios interesses.
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O Brasil tem relações históricas bastante sólidas com os Estados Unidos, tendo nele o primeiro país a reconhecer nossa independência diante de Portugal no século XIX. E, até o governo Bolsonaro, a política externa brasileira pendeu mais para uma parceria estratégica que um alinhamento automático. Como tal, aproximações e distanciamentos dependiam de pautas dos interesses nacionais brasileiros, o que não ocorre da mesma forma no outro lado: os Estados Unidos diante do Brasil, e ouso dizer, do mundo, costuma adotar uma postura de pragmatismo hegemônico. Nos últimos anos o Donald Trump, com um personalismo exacerbado, conduziu o país para fora do pragmatismo em vários episódios, mas a volta das tarifas não é o caso. A guerra de narrativas sobre a visita de Flávio Bolsonaro apresentou um “momentum” perfeito para retomar a política protecionista nos setores que lhes fossem convenientes.
Durante o governo de Jair Bolsonaro, houve um alinhamento político e ideológico sem precedentes com Donald Trump, baseado menos em convergências estruturais de Estado e mais em afinidades entre lideranças. Já no governo de Luiz Inácio Lula da Silva, a relação passou a ser marcada por divergências em temas como governança digital, meio ambiente, comércio e geopolítica. Em ambos os casos, as conversas presidenciais e os gestos simbólicos das lideranças tiveram impacto relevante sobre a agenda bilateral, influenciando negociações econômicas, percepções de mercado e decisões diplomáticas.
No caso, o governo norte americano demonstrou aprendizado utilizando a figura do Trump para fortalecer a narrativa da diplomacia presidencial, na condução das relações exteriores, para ultrapassar os canais diplomáticos tradicionais e ferir regras da Organização Mundial do Comércio.
Discordo de analistas que atribuem todas as ações do Trump à arbitrariedade e caprichos, creio que no caso tratou-se de uma jogada de política externa estratégica, orientada por interesses nacionais hegemônicos e alinhados com ataques à China. O episódio atual sugere que Washington pode estar operando sob essa lógica estratégica. Independentemente das disputas narrativas entre governo e oposição no Brasil, os Estados Unidos parecem explorar racionalmente as vulnerabilidades políticas brasileiras para ampliar seu poder de barganha.
Enquanto atores domésticos transformam o tema em disputa eleitoral — atribuindo responsabilidades uns aos outros e mobilizando discursos voltados à conquista de eleitores — a política comercial norte-americana seleciona cuidadosamente setores, produtos e áreas de interesse para aplicar ou retirar pressões econômicas. A proposta de tarifas de 25% veio acompanhada de exceções para produtos considerados estratégicos para a própria economia americana, demonstrando que a medida não é simplesmente punitiva, mas também seletiva e instrumental.
Nesse contexto, talvez o aspecto mais relevante não seja identificar qual grupo político brasileiro obteve vantagem momentânea ou sofreu maior desgaste. A questão central é perceber que os Estados Unidos atuam segundo seus interesses nacionais, independentemente de quem esteja no poder em Brasília. A fragmentação política brasileira, a polarização eleitoral e a crescente personalização das relações internacionais oferecem oportunidades para que potências estrangeiras ampliem sua influência e seu poder de negociação. Enquanto o debate nacional permanece concentrado na busca de culpados, Washington parece concentrar-se em algo muito mais simples e tradicional na política internacional: a defesa pragmática de seus próprios interesses econômicos e estratégicos.
Laura Araújo, cientista política doutoranda pela UFPE