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A insubstituibilidade do Mestre

A discussão sobre IA, suas potencialidades e seus limites, evoca a superlativa importância do senso crítico, da capacidade reflexiva e da experiência

Por Gustavo Henrique de Brito Alves Freire Publicado em 03/06/2026 às 5:00

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Por esses dias, na capital lusa, Lisboa, falando por ocasião do XIV Fórum Jurídico, o Presidente Nacional da OAB, Beto Simonetti, com o equilíbrio que lhe é característico, sustentou que o crescente apelo da inteligência artificial (IA) na prática do Direito jamais poderá redundar na substituição do advogado no polo de postulação, o chamado jus postulandi. A advocacia, deu o tom o seu líder máximo, não tem medo da tecnologia, mas não admite ser muleta de algoritmo.

Nessa mesma toada, o cientista britânico Sir Roger Penrose, hoje com quase 95 anos e em plena atividade, professor emérito de Oxford, tem insistido que a expressão “inteligência artificial”, na verdade, é um equívoco, já que inteligência real pressupõe consciência (“counsciousness”), o que uma máquina jamais terá.

A discussão sobre a IA, suas potencialidades e seus limites, evoca a superlativa importância do senso crítico, da capacidade reflexiva e da experiência no balanço entre razão e emoção que são próprios do professor em sala de aula e para além das suas paredes. Não à toa, consubstancia um vazio de difícil assimilação a perda de um Mestre. A propósito, em crônica de 2007, Rubem Alves afirmou o sonho de que toda escola pudesse reunir ao menos três facetas.

A primeira: a sabedoria de viver juntos, base de tudo o mais; a segunda: a arte de pensar, já que a partir dela se constroem todos os saberes (pensar enquanto sinônimo de sentir o que fazer com a informação, na convicção de que informação sem pensamento é o mesmo que coisa morta); e a terceira: o prazer de ler (não confundir com o hábito da leitura, que pertence ao mundo dos deveres e automatismos). Leitura amorosa, a única que nos deixa entrar em lugares desconhecidos e nos faz mais ricos interiormente. Rubem Braga então oferece o epílogo: “Quem aprendeu a amar os livros tem a chave do conhecimento”.

A escola imaginária bragueana exige o educador, sem cuja energia não se realiza. Rubem Braga faz então um comparativo com o binômio pássaro e gaiola: se queremos ensinar alguém a voar, partindo do pressuposto de que na imaginação tudo cabe, precisamos não esquecer que os mestres do voo são os pássaros e que, se aprisionamos um pássaro em uma gaiola e pedimos que ele o ensine a voar, nada irá acontecer.

Este saber não é o conteúdo curricular, nem a teoria. Aí reside o “embrulho” em que os
conteúdos curriculares são supostamente ensinados. Quando, ao olhar para trás, assistimos à perda de um educador da biografia de João Maurício Adeodato, tudo isso se agiganta. Ministrou durante décadas Introdução ao Estudo do Direito até aposentar-se e deixou um legado robusto, igualmente, na Filosofia do Direito.

Pioneiramente disseminou a “teoria retórica realista”, para a qual o Direito não é uma ciência de respostas monolíticas e absolutas, mas construção baseada na linguagem e na persuasão para dirimir conflitos e buscar o consenso no solo da real democracia. Tenho para mim que os professores, quando morrem, despem-se tão somente do invólucro físico, jamais do espírito, que por definição atravessa as gerações. O professor que
semeia boa semente, vira baraúna, e não apenas memória.

Volto à genialidade de Rubem Alves. Em “A alegria de ensinar”, de 1994, já nas primeiras páginas, brincando com o título, ele discorre sobre “ensinar alegria”, distanciando-se da ideia de que os professores seriam criaturas sofredoras. Para o cronista, o ofício de lecionar se completa quando o aluno sente o mesmo prazer que o mestre. Por isso, quando perguntado sobre seu ofício, o professor deve sempre ter a coragem para dar a absurda resposta, nas palavras de Rubem Braga: ‘Sou um pastor da alegria’. E aos alunos, somente a eles, cumpre atestar a veracidade dessa declaração.

Ao se encantar um Mestre, expedir tal atestado é fácil. Figuras da dimensão de João Maurício Adeodato são inapagáveis. Quando mudam de endereço existencial, encantam-se. E descansam em paz. 

Gustavo Henrique de Brito Alves Freire, advogado

 

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