O impacto das mudanças climáticas na saúde de Pernambuco: como nos adaptar?
As políticas de adaptação climática representam o cerne do planejamento estatal na contemporaneidade para mitigar riscos...........................
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Não dá para dizer que o assunto das mudanças climáticas é uma novidade. E por isso quero chamar a atenção para as notícias recentes sobre o “super El Niño”. Ouviu falar? Adianto que os alertas indicam secas severas, chuvas catastróficas e cenários de desastre e Pernambuco não ficará de fora desses alertas, mas é importante dizer que o que temos são sinais de atenção produzidos pela ciência, mas que precisam ser traduzidos e incorporados como políticas, especialmente políticas de adaptação às mudanças climáticas.
As políticas de adaptação climática representam o cerne do planejamento estatal na contemporaneidade, configurando a capacidade institucional de mitigar riscos decorrentes de anomalias térmicas e pluviométricas. No cenário federativo brasileiro, o estado de Pernambuco apresenta assimetrias territoriais que potencializam vulnerabilidades socioambientais, demandando análise empírica sobre a eficácia da governança local diante do aumento projetado na frequência e intensidade de eventos extremos. E, no caso, quero trazer a saúde pública como dimensão-chave para pensar adaptação às mudanças climáticas.
Nesse sentido, o debate sobre segurança humana e saúde pública adquire centralidade no semiárido pernambucano. As projeções climáticas indicam que o interior do estado sofrerá com a intensificação de ondas de calor, fenômeno caracterizado por períodos prolongados de temperaturas significativamente acima da média climatológica histórica. Essa dinâmica impõe severo estresse térmico a uma região estruturalmente marcada pela escassez hídrica crônica e pela distribuição desigual de recursos, afetando de forma direta o metabolismo social e a estabilidade epidemiológica regional.
A tese de doutorado em Ciência Política que defendi sobre a política brasileira de mudanças climáticas em 2013 já apontava a importância de pensar políticas de saúde que incorporassem parâmetros epidemiológicos para formular políticas de adaptação. Por exemplo, a exposição a temperaturas extremas atinge de forma assimétrica os grupos demográficos. Dados sinalizam que idosos e crianças apresentam menor capacidade termorreguladora, o que eleva a incidência de desidratação grave, agravamento de patologias cardiovasculares e distúrbios respiratórios. A fragilidade biológica desses segmentos é maximizada pela carência de infraestrutura habitacional adequada no interior do estado, onde o confinamento térmico em edificações precárias impede o resfriamento corporal necessário durante os picos de calor.
A ausência de coordenação federativa na formulação de planos de contingência específicos para o semiárido agrava as vulnerabilidades ambientais. No caso, é importante ressaltar que os danos ambientais não se distribuem de forma homogênea nos territórios, mas incidem sobre as clivagens socioeconômicas preexistentes. Em Pernambuco, o vácuo na implementação de políticas públicas integradas de saúde e habitação resulta na intensificação de um quadro de injustiça ambiental, no qual o interior dispõe de menor densidade tecnológica, capacidade em políticas de adaptação e de assistência médica de alta complexidade para responder a emergências climáticas em comparação à Região Metropolitana do Recife, por exemplo.
Outro aspecto que não podemos esquecer envolve a segurança alimentar no semiárido pernambucano, que também sofre os influxos diretos do estresse térmico. A quebra de safras da agricultura de subsistência e a redução da disponibilidade de recursos hídricos potáveis elevam a taxa de desnutrição infantil, comprometendo o desenvolvimento cognitivo e imunológico de menores de cinco anos. Sem dúvidas, esse cenário reforça o diagnóstico de que a crise climática opera como um multiplicador de ameaças sobre os indicadores de desenvolvimento humano.
Por fim, é fundamental reforçar que o desenho das políticas de adaptação em Pernambuco demanda uma transição de modelos reativos de gestão de desastres para estratégias de governança antecipatória. A superação do déficit adaptativo exige o fortalecimento dos sistemas locais de vigilância em saúde ambiental, o desenvolvimento de sistemas de alerta precoce para ondas de calor e o investimento em infraestrutura urbana e rural resiliente. A mitigação da vulnerabilidade estrutural das populações do interior do estado constitui prerrogativa para a garantia da segurança humana e para o cumprimento dos pactos globais de desenvolvimento sustentável.
A maior integração de universidades, sociedade civil, governo estadual e prefeituras torna-se imprescindível para reduzir esse déficit, algo que é possível fortalecer e consolidar nas agendas públicas para planejar políticas de adaptação às mudanças climáticas responsivas e sustentadas nos territórios.
Diego Freitas Rodrigues, professor Visitante no Programa de Pós Graduação em Ciência Política da Universidade Federal de Pernambuco