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A boca que mente mata a alma

Santo Agostinho foi filósofo e teólogo cristão do século IV, nascido no norte da África e, após uma juventude inquieta, converteu-se ao cristianismo

Por OTÁVIO SANTANA DO RÊGO BARROS Publicado em 23/05/2026 às 5:00

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Há poucos dias, em crônica jocosa intitulada “O tiozão no almoço de domingo”, afirmei que não voltaria a falar de política. Mas, e quando o tema integra justamente a vestimenta moral que deveria adornar aqueles que almejam cargos políticos de elevada importância representando a sociedade em geral?

Em revisita às minhas estantes de livros, retirei da prateleira o livro SOBRE A MENTIRA, de Santo Agostinho, escrito no ano de 395. Um breve parêntese para iluminar a figura do santo escritor.

Santo Agostinho foi filósofo e teólogo cristão do século IV, nascido no norte da África e, após uma juventude inquieta, converteu-se ao cristianismo, fortemente influenciado pela fé e perseverança de sua mãe, Santa Mônica. Tornou-se bispo de Hipona e autor de obras como CONFISSÕES e A CIDADE DE DEUS, fundamentais para o pensamento cristão e ocidental.

SOBRE A MENTIRA é considerado um dos primeiros textos dedicados ao tema. Nele, Agostinho busca definir a fraude, esclarecer sua natureza, delimitar seu alcance, denunciar seus disfarces e, por fim, condená-la.

Afirma o santo católico que a mentira não se confunde com um erro involuntário de fala ou de ação. Ainda assim, discute se até mesmo tais desvios poderiam configurar uma iniquidade capaz de conduzir a alma à morte.

Por ser fruto de uma vontade deliberada de enganar ou ocultar, sustenta Agostinho que a mentira representa uma omissão mortal daquele que conhece ou percebe a verdade, mas deixa de expressá-la, substituindo-a conscientemente por algo que sabe, ou julga, ser falso.

E reforça sua convicção ao afirmar que não existem exceções à regra, nem mesmo quando se mente por “fins nobres”. Para ele, a mentira jamais produz um bem. Produz sempre um mal. O cerne da discussão repousa na indagação sobre se, para mentir, basta ou é necessária a vontade de enganar.

Em outra passagem, questiona se ceder à falsidade, ainda que em uma causa supostamente justificável, não acabaria por anular o próprio ensinamento da verdade.

Façamos então algumas conjecturas, brincando com hipóteses transportadas para os dias atuais.
Como analista da conjuntura nacional contemporânea, diante do cenário político nebuloso dos próximos meses, talvez Agostinho perguntasse o que poderia ser mais perverso do que colocar vantagens pessoais ou alheias acima da verdade na busca por ganhos eleitorais.

Quando evocamos a palavra verdade, antônimo evidente de mentira, percebemos que ambas passam a caminhar lado a lado.

E, embora a verdade não seja o objeto central da análise agostiniana, diria o filósofo que ela conduz à luz, enquanto a mentira conduz à escuridão e ao sacrifício da alma.

Quando a sociedade, assumindo-se discípula de Agostinho, exige verdade de seus candidatos — verdade referendada por princípios morais, boas propostas, boas companhias e um passado de vida coerente — está, no fundo, declarando que não deseja vê-los aprisionados pela mentira.

No mundo real, é verdade — perdoem o trocadilho — que jamais mentir, ou sequer desejar mentir, talvez seja exigência reservada apenas aos perfeitos.

Mas, nessa mesma vida real, ninguém é ingênuo a ponto de acreditar cegamente em tamanha retidão. Não somos santos. É possível que aí resida o maior desafio da próxima ronda eleitoral.

Não exigir candidatos perfeitos, pois a perfeição não habita nem a política nem a natureza humana, mas distinguir aqueles que fazem da mentira um desvio ocasional daqueles que a transformam em método e trampolim para o sucesso a qualquer custo.

Porque uma sociedade que aceita a mentira como estratégia inevitável de poder corre o risco de perder, aos poucos, a própria capacidade de reconhecer a verdade.

Agostinho certamente sabia que a política jamais foi território dos puros. Talvez, contudo, hoje se espantasse ao ver a mentira convertida, não em vício tolerado, mas em técnica profissional rasteira de conquista e manutenção do poder. E contra essa iniquidade, só nos resta orar!

Otávio Santana do Rêgo Barros, general de Divisão da Reserva

 

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