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Padre Henrique (1940-1969)

Não sei quais foram as últimas palavras do Padre Henrique, antes de morrer. Provavelmente silenciou: não tinha nada a dizer a seus assassinos.

Por FLÁVIO BRAYNER Publicado em 19/05/2026 às 0:00 | Atualizado em 19/05/2026 às 10:40

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Eu desci do ônibus elétrico, ali no Colégio Padre Félix, esquina da Conde da Boa Vista com a Rua da Soledade, indo pro Colégio, naquele 28 de Setembro de 1969 quando, em frente à Sorveteria Pinguim alguém gritou: "o Padre Henrique foi assassinado!". Eu tinha 13 anos e não sabia quem era o Padre Henrique, mas ao chegar no Colégio, naquela manhã, havia um silêncio e uma apreensão constrangedora, sobretudo entre os professores que conheciam o Padre e sua relação com Dom Hélder.

A pergunta que me faço, no momento em que escrevo estas notas, é por que nunca esqueci aquele momento, aquele grito de horror, o lugar em que fora emitido? Não sei e, na verdade, não quero saber! Sei apenas que o lugar e o horror da frase não puderam ser esquecidos.

Nesse próximo dia 27 de Maio registraremos o martírio e a morte de um Homem que fora enviado ao Mundo, numa região pobre e desassistida, para dedicar sua vida a conversar com jovens sobre o que significa a PALAVRA QUE REDIME, e a luta que necessariamente a acompanha. Eu não sei qual era aquela PALAVRA, nem acho que tenho ou teria credencial ou delegação para pronunciá-la. Ele tinha! E por isso foi martirizado.

Seu assassinato se deu dentro do Campus Universitário da UFPE, onde seu corpo barbaramente torturado e baleado foi encontrado no dia 28. Eu sei os nomes de seus assassinos (meu amigo Américo Machado me mandou um longo documento sobre o caso), assassinos que, aliás, usaram a mesma Rural Willys verde e branca (pertencente à Polícia Civil de Pernambuco) que fora usada no atentado, na Ponte da Torre, que deixou Cândido Pinto paraplégico.

Um homem que pregava a palavra de Deus é assassinado dentro de um Campus universitário que, em princípio, é republicano e não professa crenças oficiais ou específicas. O que há de simbólico nesse assassinato realizado nesse lugar?

Penso, nessa humilíssima reflexão, que aquele Gólgota onde Henrique entregou seu Espírito - ali onde eu mesmo trabalho!- também é um lugar onde podemos, não exatamente, nos redimir ou nos salvar, mas onde refletimos sobre a condição humana e quanto custa defendê-la nos momentos tenebrosos em que a esperança, irmãzinha da utopia, enfraquece.

Não sei quais foram as últimas palavras do Padre Henrique, antes de morrer. Provavelmente silenciou: não tinha nada a dizer a seus assassinos. Mas imagino que deve ter pensado algo assim: "Não queria morrer tão cedo, nem dessa forma. Mas é exatamente porque estou morrendo assim que, na verdade, não morrerei: estarei na lembrança e no espírito daqueles que eu encontrei e dialoguei, e que acreditam numa forma qualquer de redenção e de preservação da dignidade do homem!".

Como disse, não sei o que ele pensou naquele último momento de vida, mas posso ouvir daqui, 57 anos depois, o que ele disse:

"MEU PAI, MEU PAI, NÃO OS PERDOAI: ELES SABEM O QUE FAZEM. E VOLTARÃO A FAZÊ-LO!"

Eu tinha 13 anos de idade quando, na Rua da Soledade, ouvi um grito desesperado...

Flávio Brayner, professor Emérito da UFPE

 

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