Particularismos culturais, democracia e identidade
Democracia moderna, diferentemente daquela do mundo antigo colocava o indivíduo como portado de um direito privado e inalienável......
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...; Milei foi eleito; Antonio Kast (Chile) foi eleito; Bolsonaro foi eleito; Hitler foi eleito; Orbàn foi eleito; Bibi foi eleito... Vocês não acham que é a própria Democracia que, "dialeticamente" (!), produz seus próprios inimigos? Isso não significa desacreditar na Democracia como forma de relacionamento crítico no confronto entre interlocutores a respeito dos destinos da Cidade: é essa "responsabilidade" (pelo governo da Pólis!) que oferece a "dignidade da política", quer dizer, aquele lugar onde exercemos uma espécie particular de "liberdade": aquela que nos torna "sujeitos" de uma ação comum com vistas à realização de um "projeto" (nacional, institucional, humano...).
Mas, a Democracia moderna, diferentemente daquela do mundo antigo (Atenas), como mostrou Benjamin Constant (o francês!) colocava o indivíduo (dignidade e fim em si mesmo) como portado de um direito privado e inalienável, concebido pelo pensamento burguês e liberal (Marx não tinha uma teoria do "indivíduo", a não ser como expressão de um pertencimento de classe). O problema é até aonde o "individualismo" liberal (e neoliberal) liberariam forças ocultas, reprimidas e recalcadas no subsolo do social que, cedo ou tarde, pedem passagem, não sob a forma freudiana da "sublimação", mas da violência, do gozo, de tânatos (morte)... em que pelo menos UM daqueles obstáculos à felicidade que Freud anotou no "Mal-estar na Civilização" - os Outros- poderia ser eliminado sem grande sentimento de culpa! Sim, os OUTROS!
Imaginar que os movimentos de libertação, de emancipação individual e social, uma vez realizados, não trariam no seu interior os "germes de sua própria desagregação" (Marx), produzindo o contrário do que propunham, é uma tola e otimista ilusão dos dialetas! Ou vocês acham que as "contradições do real" se acabam quando o nosso projeto político libertador for realizado? Peraí cumpade!
Os supostos movimentos "identitários", todos eles legítimos, não podem existir sem que um OUTRO a ser acusado ou criminalizado seja construído: e é com muita naturalidade que o BRANCO EUROPEU (colonizador, imperial, monoepistêmico, racional, hegemônico...) passou a ser essencializado em sua maldade: "A desgraça da Humanidade é o homem branco!", dizia Susan Sontag; "O mundo seria bem melhor sem os brancos!" diz Hafsa Askar da Federação Sindical Estudantil da França; "O mais grave é que a Europa é moral e espiritualmente indefensável" dizia Aimé Césaire no "Discours sur le colonialisme"..., em que se cobra uma dívida que transforma a própria História numa "História do Ressarcimento".
O filósofo Giorgio Agamben dizia que "no futuro o que estará em jogo é o passado!". Assim nossos "progressistas", "esquerdistas", "emacipacionistas", "revolucionários" (todos, claro, herdeiros do Iluminismo, esculhambado desde, pelo menos, Nietzsche e os "frankfurtianos" da primeira geração), acreditaram que nossa redenção se situava no FUTURO, depois da Grande Revolução que, finalmente, devolveria ao Homem sua humanidade. Nossos atuais emancipacionistas, lotados em movimentos de consciência e de libertação específicos (feminismo, ecologistas, animalistas, LGBTQIA , povos originários, imigrantes, quilombolas...), que a ideia de "proletariado" não consegue cobrir conceitualmente, esses movimentos, retomo, não são mais propriamente "progressistas", no sentido condorcetiano de localizar no Futuro nosso progresso espeiritual, em que o passado seria superado. Para eles, é no PASSADO (prolongado no presente) onde se situa a dor, o trauma, o crime, a ignomínia que precisa ser revelada e "cancelada" (com a destruição de estátuas de escravistas ou de ditadores, por exemplo), como se devêssemos lembrar apenas os heróis da resistência, os mártires da libertação e, ao esquecer o opressor, anular a possibilidade de compreender como funciona, com que meios, com que formação subjetiva pensa e age um genocida colonial ou um tirano.
O problema é saber se ao transformar a História num acerto de contas, poderemos assegurar uma sociedade democrática e antirracista a partir de um ideal qualquer de igualdade na pluralidade?
Não nos enganemos: todos os projetos que imaginaram o Homem Novo terminaram em totalitarismo. Mais: não devemos supor que há "lições" a serem tiradas da história: foi o povo que sofreu o Holocausto que hoje pratica um genocídio escancarado; é na Alemanha onde a AfD ("Alternativa para a Alemanha", partido neo-nazista) tornou-se a terceira força política; é no Brasil, país de fragilíssima tradição democrática, em que um Bolsonaro pode voltar ao poder!
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No século XVI°, o jovem amigo de Montaigne, Etienne de la Boétie, fez uma pergunta diferente dos pensadores políticos de sua época: todos eles se perguntavam "como preservar o poder?"; "como reconhecer os inimigos internos e externos do Príncipe?"; "como aproveitar as circunstâncias para tirar proveito político?". De la Boétie se pergunta por que os vassalos aceitam o poder que lhes é imposto? Como a "servidão" se torna um ato voluntário? Uma pergunta semelhante foi feita por Lukàcs 400 anos depois, inquirindo sobre a estrutura do Stalinismo (Carta sobre o stalinismo), sua estrutura piramidal e sua "projeção para baixo" (em De la Boétie se trata de uma "projeção para cima").
Afinal, o que o tirano, o UN (Boétie), o Duce, o Führer nos oferece ou promete no interior de uma ordem democrática? Ele promete, na verdade, AQUILO QUE DESEJAMOS (o fascismo mobiliza afetos e desejos, a democracia solicita a razão judicativa e decisória). E o que desejamos? Boa parte da sociedade deseja a ORDEM desfeita pelas novas exigências culturais; deseja a AUTORIDADE desmontada com a expansão da democracia para os espaços individuais e privados; deseja um PASSADO idílico e fabricado pelo poder, onde havia harmonia e respeito; deseja um OUTRO, inimigo, príncipe da cizânia, que garanta um "nós" que nos reúna numa comunidade espiritual e, claro, a eliminação dele. A Revolução, herdeira do Iluminismo, prometia o FUTURO; o pós-modernismo nos aprisionou no PRESENTE; o fascismo nos remete ao PASSADO. É o tempo que está em jogo nesse "imbloglio" ideológico!
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Ía esquecendo: quando Goebbels ouvia a palavra "cultura" ele tinha vontade de sacar a pistola. Hoje, quando se ouve a palavra cultura, cada um saca a... SUA cultura!
Flávio Brayner , professor emérito da UFPE