Endividamento das empresas e Politica Monetária
O ano eleitoral traz também polarizações e incertezas que dificultam as decisões de famílias e empresas...................................
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Em artigo anterior publicado neste JC, analisei o endividamento e inadimplência das famílias. Agora avalio o das empresas cuja situação, como ver-se-á adiante, é preocupante. Reportagem da Revista Veja (ano 59, Nº 14, 10/04/2026, págs. 48-50), citando levantamento da Serasa Experian evidencia que, em 2025, o Brasil teve 8,9 milhões de empresas endividadas, um crescimento de 29% com relação ao ano anterior. As dívidas em atraso cresceram 42%, em 2025, com relação a 2024, totalizando R$ 213 bilhões de reais. Estudo da Consultoria RK Partners com empresas listadas na bolsa de valores, também citado na Veja, mostra que :i) 24% das companhias de capital aberto não conseguem gerar mais caixa para pagar os juros das dívidas; ii) em 23% das empresas as dívidas são de 3 a 6 vezes maiores que a geração de caixa, e; iii) em 24% delas a dívida já supera em 6 vezes a geração de caixa. As empresas estão em apuros e no caminho, em grandes números, para a recuperação judicial que cresceu 24%, em 2025, com 5.680 empresas nesta condição no último ano, sendo 1.229 na indústria e 1.665 na agropecuária (dados da Consultoria RGF). O comércio varejista está sendo também duramente atingido. A recuperação extrajudicial, por sua vez, cresceu de 65 para 80 empresas entre 2024 e 2025.
Os juros que respondem, entre outros fatores, pelo endividamento das famílias é também o grande vilão no caso das empresas. E o Banco Central por meio do COPOM só reduziu os juros básicos (SELIC) em 0,25 pontos percentuais e tudo indica, dado o conflito com o Irã, que não persistirá, no curto prazo, nas reduções. O fato é que o choque de preços de energia, trará novas pressões inflacionárias, o que deverá adiar a pretensão do COPOM de continuar, mesmo de forma conservadora, baixando a SELIC em 2026. Enfim, a SELIC é a arma disponível do BACEN para estabilizar os preços,
Juros altos comprometem o consumo das famílias e os investimentos, inclusive em capital de giro, das empresas. No artigo anterior demostrei como as vendas no varejo ampliado, indicador de consumo das famílias, estavam estagnadas no Brasil, em meio a outros indicadores preocupantes. Como cerca de 30% da renda das famílias, em média, está comprometida com dívidas, pouco sobra para despesas básicas, inclusive alimentação o que se manifesta na falta de dinamismo do varejo . Dados recentes da conjuntura econômica, analisados a seguir, demonstram que nossas preocupações em 2024, se agravaram, em 2025, tendo fundamento nos seguintes números.
Em fevereiro de 2025, o nível de atividade econômica caiu 0,3% em relação ao mesmo mês de 2024 e o crescimento da economia em 12 meses, até fevereiro, caiu de 2,3% para 1,9% entre janeiro e fevereiro de 2026. A indústria de transformação apresentou queda de 0,9% nos 12 meses até fevereiro, o quinto mês sucessivo de declínio da produção manufatureira. A inflação, por sua vez, como era esperado, repicou de 3,81% em 12 meses, até janeiro, para 4,14%, até fevereiro. O dólar oscilou em torno dos R$ 5,00, não complicando ainda mais a situação da inflação. No mercado de trabalho, a geração líquida de emprego formal, em fevereiro, caiu 41,6% em relação ao mesmo mês de 2024, a taxa de desemprego subiu de 5,4% para 5,8% e o crescimento do rendimento real do trabalho desacelerou de 6,1% para 5,9% entre janeiro e fevereiro. No varejo, o quadro é preocupante: as vendas caíram 2,2% em fevereiro e 0,4% em 12 meses até àquele mês. O setor de serviços que lidera a economia pelo seu porte e crescimento expandiu apenas 0,5% em fevereiro, puxando o crescimento, em 12 meses, de 3,2%, em janeiro, para 2,7% em fevereiro. Números ruins que podem piorar.
Enfim todos os indicadores econômicos evidenciam uma considerável perda de dinamismo na economia e no mercado de trabalho. O impacto dos juros está se fazendo sentir de forma expressiva e o conflito geopolítico do Irã só agrava a situação macroeconômica (Inflação e juros) e aumenta os gastos tributários com os subsídios federais aos combustíveis.
Esses dados mostram que o endividamento das empresas é a contraparte do endividamento das famílias, ambos decorrentes, entre outros fatores, de juros elevados que inibem o dinamismo econômico. A política monetária está funcionando apesar da expansão dos gastos públicos e dos subsídios tributários provocados pelo choque de preços em ano eleitoral. O quadro geopolítico é um complicador adicional da situação econômica do país. O ano eleitoral traz também polarizações e incertezas que dificultam as decisões de famílias e empresas com relação ao consumo e investimento em meio a elevados endividamento e inadimplência.
Jorge Jatobá, doutor em Economia, professor titular da UFPE, ex-secretário da Fazenda de Pernambuco, membro do Conselho de Honra do LIDE-PE, sócio da CEPLAN-Consultoria Econômica e Planejamento