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Para entender a guerra no Irã

A história nos ensina que sabemos como uma guerra se inicia, mas nunca como acaba. Apesar da gritante disparidade entre os polos opositores....

Por AUGUSTO W.M. TEIXEIRA JÚNIOR Publicado em 07/03/2026 às 0:00 | Atualizado em 07/03/2026 às 11:21

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O ano de 2025 foi considerado um dos mais violentos do século até o momento. Contudo, com guerras na África, Europa (Ucrânia), Oriente Médio (Irã), Ásia (Paquistão), e Américas (Venezuela), 2026 parece emergir como um forte concorrente. A elevação da intensidade e quantidade de conflitos armados no globo é um efeito de diversas causas complexas. Dentre elas, destaca-se a crise sistêmica da ordem liberal antes liderada pelos Estados Unidos e o seu impacto no enfraquecimento de instituições internacionais. Do fim do regime de redução de armas estratégicas em 2026 (New Start) ao imobilismo do Conselho de Segurança das Nações Unidas (CS-ONU), vivemos uma nova era de incertezas e violência. Some-se a isso o recrudescimento da competição geopolítica entre China e Estados Unidos.

Como resultado da revolução islâmica em 1979, o Irã tem construído a sua identidade baseada na oposição ao Ocidente, em especial contra os EUA e Israel. Como forma de sobrevivência, Teerã optou por respostas convencionais e não-convencionais de escopo militar. Sobre as primeiras, desenvolveu um robusto programa de mísseis balísticos e de cruzeiro e de alcances variados. Mais recentemente, o país logrou desenvolver mísseis hipersônicos, usados na Guerra dos 12 dias (2025) e na atual conflagração. A incapacidade de manter uma Força Aérea moderna levou o país a desenvolver também uma importante variedade de drones aéreos, amplamente usados pela Rússia na Ucrânia, os quais demonstram ser úteis para driblar defesas antiaéreas tanto dos EUA como de Israel. No campo não-convencional, a teocracia iraniana - sob a liderança do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica- estruturou uma extensa rede de grupos aliados em toda a região, consolidando o que chamaram de "Eixo da Resistência". A cereja do bolo, contudo, era a dubiedade do programa nuclear iraniano. Signatário do Tratado de Não-Proliferação Nuclear, licitamente ao Irã é permitido enriquecer urânio e a ter um programa nuclear civil para fins pacíficos. Entretanto, a descoberta de instalações secretas e o enriquecimento muito acima do permitido deram vazão à acusações de que o programa iraniano tinha objetivos militares, em particular, o desenvolvimento de armas nucleares. É aí que encontramos uma importante chave analítica para compreender a atual guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã.

Após o aparente fracasso nas últimas negociações entre Estados Unidos e Irã sobre o seu programa nuclear, Israel iniciou o que denominou como um ataque preventivo ao Irã. Note, que um dos argumentos para a ofensiva israelense contra o Irã em 2025 foi o anúncio pelo board da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) de que o Irã estaria elevando o enriquecimento de urânio. Assim, no último dia 28 de fevereiro teve início a uma campanha de bombardeio contra o Irã, apoiado pelos Estados Unidos. A campanha teve como objetivo a decapitação da liderança política e militar, somada à degradação das capacidades missilísticas do Irã. Enquanto as capacidades de mísseis do país estão amplamente ligadas à sua capacidade de projetar poder contra os seus opositores na região, a manutenção do estamento político e militar é central para a sobrevivência do regime, elevando o patamar dos objetivos na guerra. Assim, o intento do desarme das capacidades de mísseis e a decapitação político-militar, apontam para um fim mais amplo, o da mudança de regime. Embora os reais objetivos de uma guerra nem sempre sejam anunciados, tanto o presidente Trump como o primeiro-ministro israelense Netanyahu declararam a queda da teocracia iraniana como objetivo último, algo lastreado pela morte do Aiatolá Ali Khamenei. Com isso, para o Irã, a luta para garantir que vê como um direito soberano (a manutenção de seu programa nuclear e tecnologia de mísseis) eleva-se a uma luta existencial. Paradoxalmente, o mesmo ocorre para Israel, dado que a nuclearização militar do Irã temida por Tel Aviv é uma risco existencial para o país. Nessa equação, para Israel, a mudança de regime é essencial para romper o dilema de segurança com o Irã. A grande questão é a que custo.

Se no início da guerra a estratégia de decapitação por meios aéreos logrou neutralizar importantes lideranças políticas e militares e a reduzir a capacidade de mísseis do Irã, até o momento Teerã continua lutando, ampliando o escopo geográfico do teatro de operações. Ao que nos parece, o Irã guia-se por uma estratégia calcada em elevar os custos da guerra aos EUA e Israel. Para fazê-lo, ataca também os seus aliados e provoca efeitos econômicos adversos globalmente. Isso explica porque bases americanas, refinarias de petróleo e plantas de gás natural foram atacadas na Arábia Saudita, Qatar, Emirados Árabes Unidos, Chipre entre outros países. Inicialmente uma guerra essencialmente aérea, agora ganha expressões terrestres, com relatadas incursões de forças especiais e de inteligência israelense no Irã e com a incursão israelense no sul do Líbano em resposta à represália do Hezbollah, feita em solidariedade com o Líbano. Elevando o coro, Trump e Peter Hegseth, Secretário da Guerra dos EUA, não descartam a opção do envio de tropas terrestres ao Irã.

A história nos ensina que sabemos como uma guerra se inicia, mas nunca como acaba. Apesar da gritante disparidade de meios entre os polos opositores, a guerra é um fenômeno político que, se deixada indomada, tende ao extremo. Quando atores lutam sob o signo da ameaça existencial o horizonte de violência tende ao infinito. O que a quatro dias começou como uma guerra contra o Irã, agora ganha contornos regionais. Não sabemos se outras partes do globo se tornarão partes do conflito, porém, os seus efeitos já são globais.

Augusto W. M. Teixeira Júnior,  é doutor em Ciência Política pela UFPE, professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política e Relações Internacionais da UFPB e do Departamento de Relações Internacionais da mesma instituição. Pesquisador do INCT Observatório de Capacidades Militares e Políticas de Defesa.Pesquisador PQ CNPq.

 

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