Cursos de Medicina: "a angústia do presente" e a "desordem da razão"
O Brasil é um paraíso em expiação e pouco a pouco poderá ser convertido em periferia das periferias do Ocidente. Eis a "angústia do presente".......
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Em 1221 o imperador Frederico II declarou que ninguém poderia se tornar médico sem ser examinado, publicamente, pelos mestres de Salerno. Apenas os médicos deveriam se submeter aos exames oficiais para receberem o título honorável de doutor. Quatro séculos depois, em 1808, Dom João VI, em decreto que jamais foi revogado, concedeu o título de doutor aos médicos e advogados brasileiros. Esses profissionais, mesmo sem terem doutorado, continuaram até o presente usando o título de doutor em função da lei e do costume.
Há poucos dias, os jornais ofereceram realce à classificação dos cursos de medicina no Brasil. Pernambuco teve um desempenho melancólico. Recordo que o porteiro do meu edifício apareceu certo dia com um prurido na cabeça que o tirou de circulação. Procurou um médico do SUS e recebeu uma lista de medicamentos que consumiram o salário mínimo do rapaz. Mas a comichão piorou e teve que procurar uma dermatologista de excelência. Rapidamente, o sorriso voltou aos lábios do funcionário e a tranquilidade ao espírito. Moral da história: os estudantes de medicina deixam a Faculdade com um nível de conhecimento precário. Os mais endinheirados, saem do Brasil, quando terminam o curso para complementar o que aprenderam. A maioria, contudo, se satisfaz com o pouco que aprenderam e muitos até desistem da residência médica. Aliás, eu enfrentaria a crítica dos profissionais de medicina comentando uma questão conexa: será que os alunos de medicina se matriculam em disciplinas ou frequentam tópicos ministrados por diferentes professores, numa mesma matéria? Nesse caso, a expressão “visão holística” teria desaparecido do dicionário. O nome, derivado de “holos”, significa “todo” em grego. Mas os cursos referidos, em sua quase totalidade, rejeitam o holismo. Temos que consultar um exército de profissionais para receber o diagnóstico.
Há poucos meses, marquei horário com um ortopedista porque observei uma bolinha que nasceu no meu calcanhar tornando impossível o uso de sapatos fechados. Acompanhou-me uma jovem que pretendia consultar o mesmo profissional. O médico apertou, com sadismo, a bolinha e eu lancei um grito infame. Na sequência, o ortopedista indagou com descaso: “a senhora veio aqui só para mostrar essa bolinha? É melhor deixar crescer”. Esqueci o conselho. Li apenas a bula do remédio que ele não prescreveu: “em caso de persistência dos sintomas, consulte o seu médico”. Joguei a bula na lixeira e passei a usar sandálias. O pé sorri continuamente.
No que se refere à jovem que me acompanhou, ela aproveitou o silêncio do minha aflição para falar da dor forte no joelho e complementou: “doutor, o senhor fez uma cirurgia no meu pé há dois anos, quando eu caí de uma moto. Os pinos colocados doem em excesso”. A resposta assustou-me: “Marque uma consulta com a minha secretária e eu verei o que está sucedendo”. Foi então que percebi que meus neurônios estavam em motim. Por que marcar uma consulta se ela estava conversando com o médico que a operou e utilizando o horário que havia marcado? Tem mais. Há três anos tive uma infecção nos olhos numa tarde de sábado. Procurei o serviço de urgência de um hospital esquecendo o conselho da minha funcionária doméstica: “Doutora, acredite em mim porque sou experiente. Em final de semana só tem “aprendiz”. A auxiliar tinha razão. Fiquei quase um mês privada da visão por conta do medicamento errado prescrito pelo médico-feiticeira.
Considerando que o Brasil é um padecente em matéria de seriedade, comecei a recordar a situação de um médico com visão deficiente. Sequer é capaz de encontrar o número do andar em que reside, quando ingressa no elevador. O “doutor”, há poucos dias, saiu da garagem e derrubou o portão eletrônico no lado contrário da rua. O problema não reside no perigo que ele representa para si, mas para a sociedade quando recebe, regularmente, autorização do médico credenciado pelo Detran para dirigir um SUV. Desculpem, Esqueci, por um momento, que o Brasil tem um histórico de crescimento econômico descrito como "voo de galinha" e tem problemas graves com os valores éticos. Nesse caso, não parece difícil autorizar a entrega de uma carteira de motorista a um cidadão deficiente.
Convém não esquecer o resultado da primeira edição do Enamed (Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica), divulgados pelo MEC em janeiro último. Ele revelou que um terço das Faculdades de Medicina do Brasil está ministrando um ensino de qualidade inferior. Foram avaliados 351 cursos. Segundo divulgação, 7,1% receberam conceito 1 e 23,6% ficaram com o conceito 2. Outros 22,7% alcançaram conceito 3, enquanto 33% obtiveram conceito 4 e apenas 13,6% atingiram a nota máxima, conceito 5. Os números agridem, embora as instituições prejudicadas critiquem a metodologia de avaliação na tentativa de gerar dúvidas na sociedade. Mas a verdade sempre detona. Estamos formando profissionais para o baixo clero. O mercado se escancarou para a abertura de cursos de medicina, repetindo o que sucedeu com os cursos de Direito, embora a prova da OAB preste um relevante serviço à sociedade. A questão fulcral – que não abrange todas as instituições e profissionais (temos especialistas de excelência) – é o descaso do MEC ” com o ensino em geral. Afinal, o Brasil é um paraíso em expiação e pouco a pouco poderá ser convertido em periferia das periferias do Ocidente. Eis a “angústia do presente” e a “desordem da razão”.
Dayse de Vasconcelos Mayer, doutora em ciências jurídico-políticas