Cicatriz Urbana - o elevado do Bom Pastor e a ferida aberta da Avenida Caxangá
Recife tem uma oportunidade rara: transformar ruína em reparação. Uma cidade madura não é a que nunca erra, mas a que reconhece o erro
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"Arquitetura é, antes de tudo, construção, mas construção concebida com o propósito primordial de ordenar e organizar o espaço", lembrava Lúcio Costa. Há obras que transformam a cidade. Outras, porém, a marcam como cicatriz. Na Avenida Caxangá, o elevado do Bom Pastor atravessa o Engenho do Meio como um monumento involuntário à incompletude: um grande corpo de concreto que permaneceu por anos sem função definida - e sem uma explicação pública convincente para quem convive diariamente com ele.
Quando foi implantado, o elevado não era, ao menos no discurso oficial, um viaduto comum. A promessa era integrá-lo ao corredor BRT Leste-Oeste, reforçando a prioridade do transporte coletivo. Essa promessa, no entanto, dependia de uma condição indispensável: a estação elevada. Sem ela, o elevado perde sentido - e o bairro ganha um vazio suspenso, uma intervenção que ocupa o espaço urbano sem devolvê-lo como serviço.
Esse é o núcleo do problema: a parte essencial nunca veio. O que ficou foi um objeto suspenso acima do bairro - e no tempo, como um capítulo interrompido das obras públicas recentes. A paisagem urbana não perdoa projetos incompletos. Um elevado sem função reorganiza o entorno pelo negativo: sombra, degradação, insegurança. Quando os "baixios" deixam de ser planejados como cidade, tornam-se espaços residuais, empurrados para o abandono.
Com o passar dos anos, o Bom Pastor deixou de ser apenas "obra inacabada" e tornou-se símbolo urbano. Foi descrito como "calo" da Caxangá e, depois, como "elefante branco", alvo de críticas técnicas e urbanísticas. É preciso reconhecer: cicatrizes urbanas raramente nascem de um único erro. Elas resultam de uma sequência - pressa, entrega parcial, promessas e descontinuidade. Em grandes pacotes de obras, esse risco aumenta. A cidade vira anúncio; passado o ciclo político, o que permanece é o concreto.
Há ainda um aspecto mais incômodo. O Bom Pastor funciona também como uma radiografia social. Cicatrizes não se distribuem ao acaso. Em bairros populares, o abandono parece tolerado por mais tempo, como se fosse parte inevitável do cenário - verdadeiras escaras urbanas. A pergunta impõe-se, não como acusação, mas como exame de consciência: por quanto tempo uma estrutura desse porte permaneceria sem função se estivesse em Casa Forte, Boa Viagem ou outras áreas de alta pressão imobiliária?
Em agosto de 2025, surgiu uma inflexão. O Governo de Pernambuco anunciou licitação para concluir o elevado, implantar a Estação BRT Elevado Bom Pastor e requalificar o nível inferior como Parque Urbano. A proposta tenta corrigir o erro original: não basta existir; é preciso servir e devolver o espaço à cidade.
Mas é preciso ser direto: anúncio não cura ferida. Recife já aprendeu que "obra anunciada" não é "obra entregue". Licitação não é execução. O essencial vem depois: contrato, ordem de serviço, cronograma público e fiscalização clara. A pergunta que a cidade precisa fazer é simples: a obra começou? Quais são os prazos e os marcos de entrega?
Mesmo concluída, a obra não se sustenta por si só. Corredores BRT dependem de operação, integração, acesso seguro e manutenção. Se isso falhar, a recaída será rápida reforçando o cinismo urbano de que toda obra nasce para ficar pela metade.
Recife tem, portanto, uma oportunidade rara: transformar ruína em reparação. Uma cidade madura não é a que nunca erra, mas a que reconhece o erro, ajusta a rota e conclui com seriedade. O elevado do Bom Pastor ficou anos como uma frase interrompida. Agora, o que se exige não é um novo discurso, mas obra no chão, prazos claros e resultados visíveis. A cicatriz permanecerá - mas pode, enfim, mudar de sentido.
Celso Pinto de Melo, professor titular aposentado da UFPE, pesquisador 1A do CNPq e membro da Academia Pernambucana de Ciências e da Academia Brasileira de Ciências.