Tempo fluido e fugaz
Janeiro acabou e eu nem notei. Voou, como se diz. Carnaval é logo ali. Tempo fluido, soma de pequeníssimos e insignificantes presentes
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Presente que, parece, nem sequer existir. O que consideramos presente - o aqui e agora - seria apenas um efêmero milionésimo de segundo entre futuro - o que ainda não é - e o passado - que já não é mais. Santo Agostinho escreveu isto nas suas Confissões, ressaltando o presente como um instante fugaz. De tantos instantes fugazes, janeiro se foi sem que eu percebesse. Mas, parece que a sequência destes milionésimos de segundo do presente pode ser nada para uns e tempo de sobra para outros, numa desigual distribuição de tempo. Se eu não senti janeiro passar, o diabólico Trump fez tanta desgraça, distribuiu tanta ameaça mundo afora que dá para desconfiar que o deus Cronos concedeu a ele muito tempo e não sobrou nada para mim.
Ao longo do mês, o seu governo nefasto intensificou a perseguição aos imigrantes a ponto da sua polícia invadir as cidades, desrespeitar os direitos humanos e assassinar duas pessoas, incluindo um cidadão norte-americano que se limitava a fotografar a violência. Nos 31 dias do mês, Trump assinou uma Ordem Executiva para usurpar a receita do petróleo venezuelano, insistindo que os Estados Unidos administram a Venezuela (delírio megalomaníaco), ameaçou repetir na Colômbia a intervenção militar realizada no país vizinho, e intensificou o estrangulamento econômico a Cuba, repetindo intimidações de tarifas alfandegárias para os países que insistirem em comercializar com os cubanos. O abominável presidente dos Estados Unidos ainda teve tempo para intensificar o movimento de anexação da Groelândia, "de um jeito ou de outro", segundo suas palavras grosseiras, criando um grave conflito político e diplomático com aliados históricos da Europa. E, em mais um delírio de super-homem, disparou advertências de elevação de tarifas sobre os produtos dos países que não apoiarem suas pretensões expansionistas. Com a sua cobiça burlesca de ganhar o prêmio Nobel da Paz, a ponto de reclamar do governo da Noruega por não ter sido contemplado, Trump criou um "Conselho da Paz", do qual será o presidente vitalício e o único com direito a veto, para implementar um plano de investimentos turísticos na Faixa de Gaza. O tal Conselho confirma a sua intenção de esvaziar e destruir as Nações Unidas, iniciando com a decisão, já neste mês de janeiro, da saída dos Estados Unidos de 66 organizações internacionais, 31 das quais vinculadas à ONU. Com a sua petulância, ele já tinha dito, em algum momento, que os Estados Unidos iriam substituir as Nações Unidas.
Trump terminou o mês com um grave alerta ao Irã, afirmando que o tempo estava se esgotando e prometendo um ataque "violento e extensivo" ao território iraniano para forçar um novo acordo nuclear. Para dar efeito à sua chantagem, ele promoveu uma movimentação assustadora da sua poderosa Armada na direção do Irã. No seu primeiro mandato, não se pode esquecer, ele revogou um acordo nuclear assinado por Barak Obama com o governo iraniano, abrindo caminho para que o Irã acelerasse o empreendimento de enriquecimento de urânio. Na sua estratégia de levar as relações políticas e diplomáticas ao stress máximo, Trump abusou do tempo que lhe coube em janeiro para criar dois conflitos de grande risco para a paz mundial, a anexação da Groelândia e o ataque ao Irã.
Cronos também parece ter concedido bastante tempo aos políticos brasileiros que já começaram a corrida eleitoral neste mês de janeiro, com articulações e troca de acusações, voltando do recesso parlamentar numa intensa movimentação com os olhos voltados para outubro, fazendo as contas das emendas parlamentares e dos fundos eleitorais. O ministro Dias Toffoli do STF-Supremo Tribunal Federal também foi premiado com muitos momentos fugazes do mês de janeiro para se enredar um pouco mais nas prestidigitações do Banco Master e suas irradiações suspeitas.
O mês de fevereiro, que já é curto e ainda tem um carnaval no meio, vai terminar tão rápido que também não vou perceber. Já sabemos todos que a quarta-feira ingrata chega bem depressa. Infelizmente, para Trump não existe carnaval, de modo que ele vai ter tempo para mobilizar o seu arsenal de agressões e desatinos com ameaças à segurança e à paz mundiais. Os políticos brasileiros vão pular nos blocos, é certo, mas sem perder de vista os eleitores. Aos pobres mortais resta esquecer de Trump e aproveitar já das prévias carnavalescas, até quarta-feira. Depois é que o ano realmente começa no Brasil.
Sérgio C. Buarque, economista