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2026: o ano da maior eleição do mundo

O processo de sucessão do secretário geral será uma verdadeira briga de gigantes, ainda que alguns sejam estruturalmente maiores que outros

Por RYAN PABLO A.A. PIRES E ANDREA Q. STEINER Publicado em 03/02/2026 às 0:00 | Atualizado em 03/02/2026 às 10:21

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25 de novembro de 2025 marcou a data de início do maior processo eleitoral do mundo. Não estamos falando da eleição presidencial de um país específico, mas sim de um cargo de extrema importância, talvez subestimado pela população em geral: a de secretário geral das Organizações Unidas, sendo este o maior cargo da ONU.

A sucessão na Secretaria-Geral da ONU nunca foi uma disputa meritocrática entre currículos individuais, mas um campo estratégico de forças e de variáveis como trajetórias pessoais, aceitabilidade geopolítica e sinais normativos do sistema internacional. Ainda, em mais de 80 anos da ONU, nenhuma mulher jamais assumiu essa secretaria, algo que soa cada vez mais estranho com o passar do tempo.

Após os quase dez anos de liderança do atual secretário, o português António Guterres, o debate sobre quem herdará "o maior poder do mundo" pode revelar menos sobre indivíduos isolados e mais sobre o tipo de ONU que os Estados desejam preservar (ou conter). Apesar de haver, até o momento, apenas uma candidatura formalizada, as candidaturas em potencial expõem bem esse dilema.

Podemos começar por essa primeira candidatura, a do argentino Rafael Grossi. Seu perfil, eminentemente técnico-institucional, inclui mais de 40 anos de experiência diplomática e seis anos à frente da Agência Internacional de Energia Atômica. Por um lado, a carta de intenções de Grossi mobiliza uma retórica clássica da imparcialidade e do "dever ser" da ONU, citando a importância de ações pela paz e pela segurança, da cooperação para o desenvolvimento, dos direitos humanos, da dignidade humana e da modernização e renovação das instituições. Por outro, promete resultados sem explicitar processos. Em um contexto de múltiplas crises, esse tom pode suscitar desconfiança: a ênfase correta na paz como condição para o desenvolvimento não compensa a fragilidade política de uma candidatura excessivamente normativa, sobretudo para um cargo cuja legitimidade depende mais de confiança do que de expertise técnica.

Para além dessa candidatura formal, outros nomes têm sido cogitados em diferentes espaços. A chilena Michelle Bachelet e a mexicana Alicia Bárcena detêm peso político doméstico e reconhecimento regional. Suas trajetórias no sistema internacional, entretanto, embora respeitáveis, não parecem suficientes para elas emergirem como favoritas no Conselho de Segurança, por exemplo. Ou seja, seus perfis indicam relevância simbólica e diplomática, mas não necessariamente capacidade de agregação global.

Em contraste, as candidaturas em potencial da costarriquenha Rebeca Grynspan e da equatoriana Maria Fernanda Espinosa Garcés despontam como mais densas politicamente. Grynspan combina experiência em desenvolvimento com trânsito privilegiado junto aos Estados Unidos, um ativo crucial. Espinosa, por sua vez, carrega a legitimidade de ter presidido a Assembleia Geral da ONU, além de uma atuação visível na promoção da participação feminina na política internacional. E ambas encarnam algo que o sistema parece demandar: capacidade de mediação das relações Norte-Sul.

A potencial candidatura de Kristalina Georgieva eleva ainda mais o patamar da disputa. A economista búlgara ocupou cargos de alto escalão no Fundo Monetário Internacional (FMI) e no Grupo Banco Mundial, além de ter sido vice-presidente da Comissão Europeia. Portanto, sua familiaridade e alta proximidade com as instituições internacionais e seu currículo tecnocrático robusto a colocam em vantagem objetiva frente a nomes latinoamericanos. Georgieva representa uma síntese rara: autoridade técnica, aceitação pelas grandes potências e experiência de gestão em contextos de crise, atributos altamente valorizados em tempos de austeridade e liberalismo econômico.

Ainda há outros nomes que circulam nesse debate, porém com menor densidade. A ex-primeira-ministra neozelandesa Jacinda Ardern, apesar de seu capital simbólico progressista, enfrenta limitações estruturais impostas pelo peso relativo de seu país. Já o ex-vice-presidente boliviano de origem indígena aimoré, David Choquehuanca, carece de projeção internacional suficiente. O sérvio Vuk Jeremi, ex-ministro das relações exteriores de seu país, já demonstrou viabilidade concreta no passado, figurando como um dos favoritos em 2016. Porém, embora esse fato possa reforçar sua credibilidade institucional, o momento político atual pode ser menos favorável a uma solução desse tipo.

O pano de fundo dessa disputa, contudo, é normativo. O apelo explícito dos Estados-membros na última Assembleia Geral para que a próxima pessoa a ocupar o cargo seja uma mulher não é retórico, mas sinaliza uma inflexão política real. Movimentos como o 1 for 8 Billion cristalizam essa pressão e, dentro desse universo, mulheres do Sul Global (especialmente latinoamericanas) emergem com vantagem simbólica e estratégica. Não se trata apenas de representação, mas de legitimidade para uma ONU em crise que busca renovar sua autoridade moral.

Assim, o processo de sucessão do secretário geral será uma verdadeira briga de gigantes, ainda que alguns sejam estruturalmente maiores que outros. A decisão final do Conselho de Segurança deverá ser, como sempre, estratégica e conservadora. Mas os sinais são claros: cresce a probabilidade de que "o maior poder do mundo" seja herdado por uma mulher e, não por acaso, alguém capaz de traduzir desenvolvimento, inclusão e governabilidade em uma linguagem aceitável tanto para o Sul quanto para as grandes potências do Norte. A pergunta já não é se isso acontecerá, mas qual mulher conseguirá converter simbolismo em autoridade positiva dentro de um sistema ainda profundamente assimétrico.

Ryan Pablo A. A. Pires,  bacharelando em ciência política pela Universidade Federal de Pernambuco - UFPE. E-mail: ryan.almeida@ufpe.br

Andrea Q. Steiner , professora do Departamento de Ciência Política da UFPE. E-mail: andrea.steiner@ufpe.br

 

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