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Sérgio Gondim: Sorriso amarelo

Grandes bancos atuavam como intermediários do tal Master, até então desconhecido dos poupadores básicos

Por SÉRGIO GONDIM Publicado em 31/01/2026 às 0:00 | Atualizado em 31/01/2026 às 11:15

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Há poucos dias centenas de milhares de brasileiros foram obrigados a sorrir quase ao mesmo tempo. Um sorriso sem graça, constrangedor, nervoso, obrigatório para viabilizar o recebimento das economias depositadas no Banco Master. O reconhecimento facial exigia ironicamente um sorriso para tela do celular e o sistema sobrecarregado pedia a repetição várias vezes, travando e recomeçando. De tanto tentar, teve até gente que adquiriu um tique nervoso, passando a contrair o músculo Zigomático no meio das conversas. Por falar em músculos envolvidos no sorriso, o Zigomático maior está mais envolvido no chamado sorriso largo, diferente do sorriso amarelo, ou de cortesia, que utiliza mais o Zigomático menor, o Risório e o Frontal. O tique observado era uma contração do Zigomático menor, amarelo portanto.

Foram três acessos ao aplicativo por segundo, refletindo a ansiedade de quem avidamente procurava garantir a devolução, antes que uma medida judicial baseada em dados sigilosos "desliquidasse" o banco e embolasse o meio de campo. Havia uma mistura de sentimentos, alívio na maioria. No dia da liquidação o aplicativo do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) chegou a ser o mais baixado no mundo, uma rara ocasião em que investidores ficaram felizes por não ter muito dinheiro, enquanto os que tinham créditos superiores a 250.000,00 reais estavam se contorcendo em revolta. Alguns sentiram um frio na espinha porque bateram na trave.

Grandes bancos atuavam como intermediários do tal Master, até então desconhecido dos poupadores básicos, mas definido pelo ministro como o maior fraudador da história bancária do país. Certamente pagava boas comissões pela venda de seu CDB turbinado e quem programou a aposentadoria sem prestar atenção, confiando nos critérios dos grandes bancos que negociavam os papéis, ou mesmo quem vendeu a casa e deixou lá o dinheiro enquanto encontrava nova moradia, se transformou em sem-teto do dia para noite e ainda precisou sorrir para receber o troco. Pela lógica e por analogia com outros negócios, lojas que anunciam em suas vitrines e vendem produtos fajutos e falsificados causando prejuízos, teriam responsabilidade sobre as vendas. Coisa para os juristas contraírem os músculos que fazem franzir a testa.

Como se não bastasse, o sistema subtraiu centenas de milhões de reais dos poupadores de forma explícita ao congelar 40 bilhões de investimentos por 2 meses (do dia da liquidação até o dia do ressarcimento), isso levando em consideraçao apenas depósitos até 250.000,00 reais. O caso Master mostrou que fraude grande com costas quentes faz parte da chamada ciranda financeira e jornais publicaram até a suspeita de obstrução de justiça pela própria justiça. Ô povo linguarudo.

Se houvesse coerência na hora de fazer reconhecimento facial, o aplicativo deveria exigir que houvesse contração do músculo Corrugador do supercílio, típica da expressão de tristeza e dor, na segunda etapa que contraísse o Orbicular dos olhos responsável pelo olhar de sofrimento, o Levantador do lábio superior e da asa do nariz responsáveis pela expressão de aflição. Para concluir o cadastramento teria que escorrer uma lágrima.

Quem sorrisse na frente do celular não deveria receber nenhum dinheiro e teria que se explicar, principalmente se contraísse o Zigomático maior, exibindo sorriso largo sem franzir a testa. Essa expressão é reservada, quase com exclusividade, para os grandes fraudadores do Brasil.

Sérgio Gondim, médico

 

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