O mais famoso (e melhor) cozido de Pernambuco
Durante muitos anos Jarbas Vasconcelos reuniu amigos para seu famoso cozido. Muita gente tinha inveja por não ser convidado.........
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Poucos eventos da cena política e social brasileira fizeram tanto sucesso por tanto tempo quanto o Cozido de Jarbas Vasconcelos, que funcionou durante muitos anos, sempre reunindo nomes de destaque, com uma característica: todos, amigos do anfitrião, que sempre recusou insinuações de pessoas fora do seu círculo interessadas em participar dos encontros. Aconteceram nos dois períodos em que foi prefeito do Recife, nos dois em que foi governador de Pernambuco e nos quatro em que foi senador.
Como sempre tive uma forte ligação de amizade com ele. Fui um dos poucos convidados para todas essas reuniões, sempre no almoço dos sábados. Começou na casa dele, no Rosarinho, já com peças da sua famosa coleção de artesanato. Ele recebia ao lado da irmã Lourdinha e sempre de uma das suas namoradas. Não é segredo que Jarbas teve uma longa lista de belas namoradas, algumas com o título de Miss Pernambuco. Tanto que um jornal do Sul o classificou como "Rei das Misses".
Quando Jarbas vendeu a casa, comprou outra na Praia do Janga, um espaço agradabilíssimo, à beira-mar, onde passava os fins de semana. A residência era também de Zinho Correia, certamente o maior amigo de Jarbas, que teve o famoso restaurante Mourisco, em Olinda. Muito além de um simples almoço, o evento se consolidou como um ritual de convivência, diálogo e celebração das amizades construídas ao longo de décadas de vida pública. Eram realizados de forma informal e acolhedora. Começava com conversas no terraço, com muita cerveja e uísque, ao lado de salgadinhos deliciosos. Como sabia que eu não bebia, jamais deixava de providenciar um refrigerante para mim.
Sempre em torno das 13h, Jarbas, anfitrião atento, convidava os amigos para a mesa, que era uma verdadeira obra de arte da culinária. Com um detalhe: tudo preparado por Jarbas, que ia pessoalmente ao supermercado comprar, com cuidado, os ingredientes, para começar a preparar as delícias na véspera, garantindo que cada item estivesse no ponto ideal. Reunia carnes bovinas, suínas e defumadas de alta qualidade, uma variedade imensa de legumes - batata, cenoura, jerimum, repolho, maxixe, quiabo - junto com milho, cozidos no caldo das carnes. E um indispensável pirão, feito com farinha de mandioca fina, além do arroz branco soltinho.
Em outras mesas, as sobremesas - Jarbas costumava dizer, brincando: "Estas eu não fiz, mandei comprar". Um dos destaques era sempre o sorvete de mangaba, da Bacana, famosa sorveteria de Olinda. E, claro, um cafezinho muito bem tirado.
Depois, os encontros e as conversas não paravam, iam até as 17h, quando Jarbas costumava se despedir para ir tirar uma soneca. E, diz a lenda - nunca consegui comprovar - que ele reservava um quarto para os amigos que tinham bebido tanto que estavam sem condições de dirigir e tiravam um cochilo, antes de voltar.
Participei diretamente de dois dos mais famosos cozidos, que foram marcantes na política pernambucana. Amigo dos dois, recebi autorização de Jarbas para convidar dois dos seus mais conhecidos adversários políticos para irem ao Janga. O primeiro foi Carlos Wilson Campos, que tinha sido aliado de Jarbas e depois, por implicações políticas, seguiram caminhos distintos. Carlos Wilson chegou em companhia de Romeu Neves Baptista, André Campos e Ettore Labanca. O abraço de Jarbas e Cacá foi, confesso, um dos momentos políticos mais emocionantes que presenciei. Depois do almoço, os dois ficaram grandes amigos até a morte de CarloswILSON , que chegou a ir a outros encontros no Janga.
O outro foi com Eduardo Campos, então governador do Estado. Quando liguei para ele, respondeu na hora: "Vou, mas você tem que ir". Marcamos para o sábado seguinte. Eduardo foi com Renata, Paulo Câmara, Danilo Cabral e Milton Coelho. O reencontro dos dois, que tinham sido amigos no passado, em função da ligação com Miguel Arraes, foi igualmente emocionante, num forte abraço. Eduardo adorou o cozido, tanto que repetiu o prato. Teve, recordo, uma conversa reservada com Jarbas, nos jardins da casa, que reatou uma amizade que durou até a morte de Eduardo.
Seria impossível lembrar os muitos nomes que encontrei naqueles almoços, mas recordo alguns que eram mais constantes: Terezinha Nunes, Jota Michiles, Antonio Lavareda, Ferreira, Flora Lima, Anacleto Nascimento, Magno Martins, Geralda Farias, Paulo Sérgio Macedo, Severino Mendonça, Tom Uchoa, Ênio Benning, Fernando Dueire, José Arlindo Siares, Maurício Romão, Raul Henry, Sérgio Guerra, João Câmara e Lúcia Pontes.
Na pandemia, Jarbas Vasconcelos vendeu a casa, determinando o fim do mais famoso encontro da política pernambucana. No seu apartamento nas Torres Gêmeas, chegou a preparar dois cozidos para os amigos, mas me fez uma confissão: "Não sei fazer cozido para pouca gente, só para muitos amigos, como acontecia no Rosarinho e no Janga". E me fez outra revelação. Começou a aprender a fazer seu famoso cozido em Brasília, quando tinha se separado e ficava só no seu apartamento nos finais de semana. Na época, os deputados só vinham para o Estado de 15 em 15 dias, não havia facilidade de passagens como hoje.
Muita gente tinha inveja por não ser convidado e até se criou o "Clube do Cozido", que reunia os participantes mais assíduos. Eu era sócio do clube.
João Alberto Martins Sobral, editor da coluna João Alberto no Social 1