O mordomo e a indignação seletiva
O "mordomo" não é um ninja. Não habita o reino das sombras. É uma criatura do dia e da noite. É o elo de uma corrente......................
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Atribui-se a Agatha Christie - criadora de Poirot e Miss Marple, impagáveis ambos - frase que virou clichê das obras de mistério policial: "A culpa é sempre do mordomo". Curiosamente, em nenhum dos seus 86 livros, o assassino foi o mordomo.
A frase partiu dentro de outro contexto, quando de petardo irônico dirigido por Dame Agatha ao "rival" Conan Doyle, inventor do detetive Sherlock Holmes, que a "Rainha do Crime" adjetivava como "vulgar e sem nenhuma criatividade". No original, o episódio ficou documentado assim: "Dá um tédio, a culpa é sempre do mordomo e a narrativa faz uma reviravolta absurda para explicar, tudo isso pra chocar. E não explica nada, só diz que a culpa é do mordomo e não explica mais nada, geralmente dá um motivo fútil como cortina de fumaça".
Desde o ápice dos eventos do domingo 8/1/2023 em Brasilia, a opinião pública se permitiu ampliar o fosso da divisão em barulhentas torcidas organizadas na malhação do "mordomo" por cada uma delas escolhido para o papel de malvado favorito. A depender da torcida, o "mordomo" muda, mas segue "mordomo".
O ponto é simples. Se o "mordomo" faz seu serviço, porém se me questiona ou se não sorri sempre que passo perto, a ele, então, passo a atribuir meu tédio. E deixo esse tédio se tornar culpa que a ele atribuo pelas pragas terrenas sempre que chuto a gol não estando impedido e perco de marcar. Não importa. A danação é fardo solitário daquela figura detestável. O mais não interessa.
Ignoro, ao fazê-lo, que o "mordomo" não caiu de paraquedas no emprego; alguém o contratou, sondou suas referências, passou-lhe as regras da casa. Sabia o que estava fazendo. Não há confusão. Não foi praticado crime de falsa identidade. O "mordomo" não é um ninja. Não habita o reino das sombras. É uma criatura do dia e da noite. É o elo de uma corrente.
Se o "mordomo" deixa de atender às expectativas, se começa a perder o apuro, o timing, se não arruma as flores exatamente na mescla de cores que lhe determinei, então a culpa é apenas dele ou é também minha, que, afinal o contratei e devia acompanhar seu desempenho?
Se as ruas estão sujas, a culpa é dos garis? Se os hospitais vivem lotados, a culpa é dos pacientes? Se o trânsito piora, a culpa é das montadoras automobilísticas? Se se perde uma eleição, a culpa é da chuva? Se se atenta contra a democracia, não há também culpados invisíveis?
Francisco Nogueira, psicólogo, colunista de um suplemento de revista de circulação nacional, escreveu (02.12.2024) preciosa crônica intitulada "O ser humano e a eterna mania de culpar o outro". Vale a alusão para contexto. Nogueira conta o seguinte: o casamento não andava bem. Mas a culpa era da esposa. Os filhos gastavam muito e davam trabalho, mas a culpa era da geração. O protagonista da crônica terceirizou a responsabilidade a uma instância metafísica com a qual parecia não ter qualquer relação que não a de vítima.
Um dia, começou a notar que não se tratava de ignorar os problemas causados pelos outros, pois ele mesmo havia sofrido reveses durante a vida. E entendeu, finalmente, que era preciso se perguntar de que maneira contribuía para a perpetuação dos próprios sofrimentos.
Propõe um exercício. Indagar-se o quanto a referida dúvida é crucial na trajetória de uma análise, não sendo, porém, fácil formulá-la. Fácil é a ilusão do pensamento de que a culpa é sempre e exclusivamente do outro. Arremata com uma possível bóia de salvação: "Enfrentar a dificuldade dessa pergunta costuma ser libertador. Encarar o fato de que, muitas vezes, somos parte ativa na produção de situações que nos fazem sofrer exige um movimento de resposta que pode carregar uma potência emancipatória".
No pelo visto arrastado duelo entre os times do "boi caprichoso" e do "boi garantido" de que muitos ou não são capazes de se libertar ou não o querem ou negam estarem enfermos (acrescento a impressão que tenho de que o hiato pandêmico agravou significativamente as mazelas da cizânia ideológica), ninguém ganha ao atribuir ao "mordomo" a "culpa" do seu sofrer existencial. Triste estarmos tardando tanto a aprender essa lição. Ao contrário: anda sobrando "culpa" até às mais tradicionais sandálias de dedo do mercado.
Gustavo Henrique de Brito Alves Freire, advogado