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Quando os fortes falam, os fracos pagam

Entre a submissão automática e a aventura inconsequente, existe a política. E enquanto houver memória, escolha e recusa ao medo, desesperar jamais....

Por CELSO PINTO DE MELO Publicado em 10/01/2026 às 0:00 | Atualizado em 10/01/2026 às 7:54

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"Não tem cabimento entregar o jogo no primeiro tempo." Esses versos da canção Desesperar Jamais, escrita no final da ditadura militar brasileira, nasceram em um tempo de medo, censura e desalento. A mensagem era direta: a história é longa demais para ser abandonada no meio do caminho.

Quase dois milênios antes, Tucídides já havia registrado a mesma tensão no Diálogo dos Melianos. Diante da pequena ilha de Melos, Atenas não ofereceu argumentos morais ou propostas de negociação. Foi direta: os fortes fazem o que querem; os fracos sofrem o que devem. Resistir seria irracional; submeter-se, apenas realismo.

Essa lógica, que muitos gostariam de ver restrita aos livros de história, voltou a ganhar forma concreta com o ataque militar dos Estados Unidos à Venezuela, culminando no sequestro do presidente Nicolás Maduro. O episódio não foi um acidente diplomático nem um excesso momentâneo. Foi um recado claro, dirigido não apenas a Caracas, mas a toda a região.

A ação deu forma concreta à reativação da Doutrina Monroe ("América para os americanos"), agora adaptada ao século XXI. Não se trata mais de ocupações prolongadas, mas do uso combinado de sanções, bloqueios financeiros, controle de tecnologias estratégicas e, quando necessário, de força direta. Uma política de intimidação menos visível, porém altamente eficaz.

Nesse cenário, os Estados Unidos reafirmam o Hemisfério Ocidental como área prioritária e deixam claro que não aceitarão a presença de potências extrarregionais - especialmente a China - no controle de recursos, de infraestruturas críticas e de cadeias produtivas. A Venezuela, com suas vastas reservas de petróleo, tornou-se o caso mais explícito dessa estratégia.

O recado é simples: quem desafiar a hierarquia paga o preço. Não há espaço para mediação multilateral nem para longas negociações. Como em Melos, a conversa começa e termina na linguagem da força.

Mas Tucídides não escreveu para glorificar Atenas. Seu relato expõe os limites do poder exercido sem freios. Atenas venceu Melos - e perdeu a guerra. A força que se apresenta como destino carrega, quase sempre, uma miopia histórica perigosa.

É nesse ponto que Desesperar Jamais ganha atualidade. A canção não nega a dureza do momento nem promete vitórias fáceis. Ela apenas recusa o fatalismo. Ao afirmar que "aprendemos muito nesses anos", mostra que desistir é sempre uma escolha, nunca uma imposição inevitável da história.

Para o Brasil, a questão é inevitável: aceitar um papel puramente reativo ou tentar ampliar suas margens de decisão? Não se trata de confrontar os Estados Unidos nem de disputar hegemonia, mas de atuar como articulador regional, defensor da soberania e da mediação política em uma América Latina cada vez mais pressionada.

A tradição diplomática brasileira, somada à trajetória pessoal e à credibilidade internacional do presidente Lula, mostra que essa possibilidade existe, ainda que cercada de limites. A alternativa é a resignação silenciosa, disfarçada de realismo.

A história ensina outra coisa. Nenhuma correlação de forças é eterna. Nenhum império é invulnerável. Como lembrava a música que marcou os anos finais da ditadura, o jogo é longo demais para ser abandonado no primeiro tempo.

Entre a submissão automática e a aventura inconsequente, existe a política. E enquanto houver memória, escolha e recusa ao medo, desesperar jamais seguirá sendo mais do que um verso: continuará sendo uma decisão histórica.

Celso Pinto de Melo, professor titular aposentado da UFPE e membro da Academia Pernambucana de Ciências.

 

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