Os Lucas Romanos e o Recife invisível do começo do século XX
O episódio mostra, sobretudo, como as autoridades constroem enquadramentos rápidos, alternando ridicularização e repressão.........
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O Recife é uma cidade tecida em camadas de histórias. Algumas, como as aventuras flamengas de Maurício de Nassau ou a mítica passagem do Zeppelin, gozam de um sucesso estrondoso no imaginário coletivo. Sobre elas, sempre há o que dizer; há sempre um pesquisador debruçado sobre um novo documento ou um diletante dedicado às coisas do passado. Contudo, entre as frestas dessas narrativas oficiais, sobrevivem episódios que, embora mais recentes que o século XVII, permanecem mais desconhecidos do que as fundações das nossas pontes.
A história que recupero aqui é a dos Lucas Romanos. Ouvi falar deles pela primeira vez através do historiador Israel Ozanam, que resgatou uma menção de Mário Sette, ainda na década de 1930, em Maxambombas e Maracatus, já distante alguns anos do acontecido. Sette apresenta "os Lucas" como um grupo religioso que circulava no Recife e, já na abertura, faz uma atribuição cuidadosa: diz tratar-se de "uma nova seita religiosa, ou que se presumia ser". Ao registrar a classificação, ele marca a dúvida, mas logo embute um juízo de valor positivo ao comparar o grupo ao cristianismo "humilde e ingênuo" dos primórdios, anterior às catedrais famosas e aos palácios do Vaticano. A imagem é poderosa: aproxima os Lucas de uma simplicidade original, como se a cidade, por instantes, reencontrasse um sagrado sem aparatos.
Ao descrever o grupo, localizado em um sítio na Madalena, onde hoje se localiza o Jockey Club, Sette enumera práticas com minúcia: cerimônias com orações e cânticos, jejuns rigorosos e a recusa da carne por considerarem os animais "irmãos". Os homens ostentavam cabelos e barbas longas; as mulheres, cabeças raspadas. Trajavam túnicas e gorros brancos e tinham o jumento como animal sagrado: a ponto de advertirem cavaleiros a descerem do "irmão" cavalo.
O texto de Sette nos força a um cuidado metodológico: em que momento ele observa e em que momento ele julga? O cronista qualifica os Lucas como inofensivos, trabalhadores e piedosos, enquanto enquadra a hostilidade pública, as pedradas e vaias, como uma incompreensão social. Para ele, a pecha de "loucos" dada pela vizinhança seria a mesma aplicada aos apóstolos de Jesus, caso estes voltassem à terra em sua simplicidade. Todavia, ao narrar a dispersão do grupo pela intervenção policial, Sette introduz um "talvez" carregado de peso moral, sugerindo que o grupo poderia ter aderido ao "tartufismo" (devoção fingida). A prudência do cronista deixa o julgamento à vista.
Outra lente sobre o episódio surge no Jornal Pequeno, em 1907, escrito no calor do momento. Ali, o tom é de denúncia e mistério. O líder surge como "Santo Lucas", um idoso de barbas brancas que transformou um prédio abandonado na Madalena em templo. Lucas se identificava como o próprio Espírito Santo em peregrinação, reivindicando autoridade para interpretar a Bíblia. Enquanto o jornal narra com ironias e insinuações de fraude, o grupo vivia um projeto de purificação radical: andar descalço, evitar ganhos materiais e crer em uma catástrofe iminente.
Havia, porém, um eixo prático que a imprensa da época não perdoou. Intermediários do grupo circulavam no mundo "profano" organizando recursos e lidando com demandas cotidianas, como interpretação de sonhos e palpites do jogo do bicho. O que o repórter chamou de exploração, hoje podemos ler como a complexa rede de sobrevivência de uma comunidade à margem.
Os seguidores não eram uma massa abstrata. Eram verdureiros e trabalhadores das redondezas, gente exposta às incertezas de um Recife que se modernizava excluindo os seus. Figuras como a irmã Felícia e o irmão Leopoldino compunham esse núcleo de fé que buscava resposta para as aflições diárias sob o olhar vigilante da polícia e o riso de escárnio da cidade curiosa.
A complexidade dos Lucas Romanos reside no fato de que eles não cabem em rótulos únicos de santidade ou fraude. O episódio revela como a desigualdade e a carência de amparo criam terreno fértil para lideranças carismáticas, mas mostra, sobretudo, como as autoridades constroem enquadramentos rápidos, alternando ridicularização e repressão.
No presente, quando as disputas públicas ainda transformam crenças em mote de ódio, e quando a vulnerabilidade social continua empurrando os desassistidos para promessas de cura e pertencimento, a história dos Lucas Romanos volta a nos interpelar. Ela nos lembra que o Recife não é só um museu de grandes feitos, mas um laboratório vivo de fé, sofrimento e conflito. Convida-nos a perguntar: que cidade produzimos quando o desespero busca linguagem na margem, e a única resposta institucional é o dedo apontado?
Dirceu Marroquim ,doutor em História Social pela USP e Sócio efetivo do IAHGP.