A Fé que silencia diante do Imperialismo Americano
O que acontece agora com a nova invasão e as ameaças contra a Venezuela é apenas mais um capítulo de um livro que os EUA escrevem há décadas
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A história se repete, mas o discurso é sempre o mesmo. Eles dizem para o mundo que são a "nação escolhida" por Deus e os grandes defensores da liberdade. Com a maior população cristã do planeta (segundo dados do Pew Research Center) e o lema In God We Trust (Em Deus Confiamos) gravado no dólar, o país tenta passar uma imagem de santidade. Hoje, os EUA são um dos maiores exemplos do cristianismo no mundo e espalham sua cultura religiosa por todo lado. Mas, quando olhamos a história, aparece uma contradição feia. Como um país que se diz tão cristão pode ser o mesmo que invade e destrói nações mais pobres sem remorso?
Essa conta não fecha. Enquanto as igrejas, principalmente as evangélicas conservadoras, estão sempre lotadas, o governo americano faz coisas que vão contra o que Jesus ensinou. Onde estava o amor ao próximo desses "cristãos" enquanto os EUA jogavam veneno no Vietnã, deixando sequelas em crianças até hoje? Ou quando transformaram o Laos no país mais bombardeado da história, com média de mais de uma bomba por pessoa? A verdade é que muitas lideranças religiosas apoiaram até golpes de Estado, como a Operação Brother Sam no Brasil, em 1964, e o golpe no Chile, em 1973. Usaram a religião para "limpar" a imagem do que foi apenas roubo de riqueza e controle de poder na marra.
Esse jeito de agir vem da ideia perigosa de que os interesses dos Estados Unidos são os mesmos interesses de Deus. Foi esse pensamento que fez com que, em 2003, 87% dos evangélicos brancos americanos dessem seu "amém" para a invasão do Iraque (ainda segundo dados do Pew Research Center). Aquela foi uma guerra baseada numa mentira sobre armas químicas, que terminou com a morte de milhares de civis inocentes. Infelizmente, para muitos americanos, a oração na igreja vem antes do míssil ser lançado. Muitos usam a Bíblia para justificar a guerra e usam a palavra "liberdade" como desculpa para tirar o que os outros países têm.
Quase ninguém fala da destruição que deixaram no Afeganistão ou da crise terrível no Iêmen. Nesses lugares, a fome é desesperadora e confirmada pela própria ONU, através do Programa Mundial de Alimentos (WFP) e da FAO. No Iêmen, o índice de gente passando fome atingiu 80% da população no pior momento da guerra; no Afeganistão, mais da metade das pessoas não tem o que comer hoje. O dinheiro e as armas americanas ajudam a manter esse cenário de miséria enquanto dizem que estão ajudando o mundo. Hoje a história continua, seja na Venezuela ou em outro lugar, depende do interesse do governo americano.
No fim das contas, a gente precisa se perguntar a quem os Estados Unidos servem de verdade. Se a mensagem de Jesus é sobre paz e cuidado com quem sofre, a política dos EUA é o contrário disso. Ao financiar guerras e derrubar governos que não aceitam suas ordens, eles trocaram o Deus da Bíblia pelo ídolo do poder e do dinheiro. Um país que vive de causar genocídios e espalhar o caos não pode ser exemplo espiritual para ninguém. O cristianismo americano virou só uma peça de propaganda, uma cruz usada para esconder o rastro de sangue que o império deixa pelo caminho enquanto tira a riqueza dos países mais pobres.
João Carvalho, jornalista e mestrando em Ciências da Religião pela Universidade Católica de Pernambuco