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Autismo e DOHaD: ciência, origem e responsabilidade diante da vida em formação

O aumento dos diagnósticos de autismo exige uma escuta atenta à complexidade, evitando explicações simplistas...........................

Por RAUL MANHÃES DE CASTRO E CAIO MATHEUS CALADO Publicado em 08/01/2026 às 0:00 | Atualizado em 08/01/2026 às 11:25

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O modelo DOHaD (Origens Desenvolvimentistas da Saúde e da Doença) constitui uma chave fundamental para essa compreensão, configurando um novo paradigma da medicina. Ele propõe que, desde a gestação e os primeiros anos de vida, o organismo responde ativamente ao ambiente, registrando experiências por meio de mecanismos epigenéticos, ajustes finos que modulam a expressão dos genes sem alterar o DNA herdado, ampliando ou restringindo possibilidades de desenvolvimento.

No Brasil, essa abordagem ganha corpo em centros de pesquisa como a Unidade de Estudos em Nutrição e Plasticidade Fenotípica da UFPE, coordenada pela doutora Ana Elisa Toscano, que investiga como fatores nutricionais e ambientais precoces influenciam trajetórias de saúde ao longo da vida. Embora a Unidade ainda não tenha o autismo como objeto direto de investigação, seus fundamentos teóricos, metodológicos e achados no campo da programação do desenvolvimento constituem bases sólidas para futuras pesquisas nessa área.

Sob esta ótica, o autismo é compreendido como uma condição de etiologia multifatorial. Ele emerge da interação contínua entre uma predisposição genética e fatores ambientais, atuando em períodos sensíveis do desenvolvimento cerebral. Elementos como idade parental avançada, inflamação gestacional, estresse materno intenso, prematuridade e estado nutricional são estudados como moduladores de risco populacional, e nunca como causas diretas ou determinantes para um indivíduo. A epigenética ajuda a explicar essa complexidade ao descrever os mecanismos que regulam a expressão dos genes sem modificar a sequência do DNA, mecanismos esses influenciados por fatores ambientais como nutrição, estresse e exposições precoces, contribuindo para a vasta diversidade observada no espectro autista.

É crucial, contudo, reconhecer os limites deste modelo. O DOHaD não explica a experiência subjetiva, a identidade autista ou as trajetórias individuais, e seu discurso não deve, em hipótese alguma, sustentar narrativas de culpabilização, especialmente dirigidas às famílias. Sua contribuição mais valiosa é científica e social: reforçar a urgência de políticas públicas robustas voltadas para o cuidado pré-natal integral, a proteção ambiental e a redução das desigualdades sociais que impactam o desenvolvimento. Cuidar do início da vida é, em última instância, um investimento ético no futuro coletivo. Em um tema complexo como o autismo, sustentar perguntas cuidadosas e respeitar a multiplicidade de fatores é um gesto de maturidade mais responsável do que a busca por respostas definitivas e unidirecionais.

Raul Manhães de Castro, médico e membro da Academia Pernambucana de Ciências.

Caio Matheus Calado, psicólogo. especialista em Análise do Comportamento Aplicada ao Autismo.

 

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