Nosso crítico no Festival de Cannes
Terei ainda mais orgulho quando puder dizer que já fui chefe do primeiro brasileiro que ganhou o Oscar, o, que, senhores, não é pouca coisa, não…
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De repente, o pernambucano Kleber Mendonça Filho se transforma em celebridade global, Cineasta aplaudido e premiado, admirado internacionalmente e nome cotado para ganhar o "Oscar", o prêmio mais cobiçado e mais prestigiado do mundo, pela direção do filme "O Agente Secreto", sucesso de público e de crítica onde já foi exibido.
A bem da verdade, esse último filme chega para consagrar Kléber Mendonça Filho, também diretor de" O Som ao Redor", "Aquarius" e "Bacurau" - todos eles bem recebidos pela crítica e pelo público, certamente por não demarcarem fronteiras - e serem compreendidos e aplaudidos pelas plateias de todas as partes do mundo.
E assim com o aconteceu com o filme "Ainda estou aqui", que consagrou a atriz Fernanda Torres, 'O agente secreto", de Kléber Mendonça Filho, não é apenas um "filme exótico" de um diretor do Terceiro Mundo, como foram, no passado, "O Pagador de Promessas" ou "Deus e o Diabo na Terra do Sol": é uma produção de alto nível, feita de forma meticulosa e profissional, dirigida por um cineasta talentoso, que cresce e surpreende a cada novo filme que dirige. E essa busca pela qualidade faz parte da vida e da história de Kléber Mendonça Filho.
Conheço e convivi, profissionalmente, com Kleber Mendonça Filho, na Redação do Jornal do Commercio de Pernambuco, que por quase 30 anos tive o prazer de dirigir. Ele, bem moço ainda, chegou para compor a equipe do Caderno C, editado pelo jornalista Marcelo Pereira, onde também estavam ou estiveram jovens igualmente talentosos, como Flavia de Gusmão, Schneider Carppegianni, Luísa Modesto, Janaína Lima, Daniella Romani e outros mais, que faziam daquele suplemento, um dos melhores "produtos" de toda redação.
A função de Kléber: crítico de cinema. E como crítico, Kleber tinha uma visão mais ampla e mais profunda sobre os filmes que viria a comentar - vendo com "um olhar" diferente e mais aguçado algumas produções mais elaboradas e dirigidas por cineastas mais herméticos, a exemplo de Almodovar ou Buñuel; ou de diretores mais acessíveis, porem igualmente geniais, como Francis Ford Coppola.
Ele antevia, também, alguns filmes que teriam sucesso de crítica e de público - e nunca teve medo de expor sua opinião, mesmo que algumas vezes discordasse da maioria e do lugar comum. Certa vez, ele chegou na minha sala e me fez uma proposta que soava ambiciosa, para ele e para o jornal: viajar para a França, como "enviado especial", e cobrir, "in loco", o Festival de Cinema em Cannes, o que significada cerca de 30 dias fora do país, custos com passagens aéreas, hospedagem e alimentação, além de alguma verba extra para Locomoção e possíveis imprevistos, que sempre costumam aparecer.
No meu orçamento anual, não estava previsto esse tipo de gastos. Mas, como a proposta era ambiciosa, o assunto era bom, a chance de tornar o Jornal do Commercio ainda mais respeitado pela ousadia, estudamos, juntos, algumas possibilidades, entre as quais uma parceria com a Aliança Francesa, que se propunha a cobrir parte dos gastos, em troca de créditos nas matérias e comentários que Kleber viesse a produzir.
E Kleber viajou para a França, enviou matérias de lá que publicamos com destaque, o JORNAL DO COMMERCIO certamente foi o único veículo de Imprensa foram do Rio e São Paulo que esteve Presente no Festival de Cannes, desde a abertura até o encerramento. E esse evento passou a fazer parte do calendário de cobertura do Jornal nos anos seguintes, sempre com a mesma parceria e a mesma liberdade para Kleber escrever, comentar, criticar e elogiar as películas lá exibidas "em primeira mão", já que ele era "o mestre" que entendia com profundidade o que alguns diretores mais herméticos diziam ou pretendiam dizer.
Posso dizer que nossa convivência, enquanto durou, foi sadia e respeitosa - e não me Lembro, nunca, de ter havido entre o diretor de Redação e seu crítico de cinema o menor desentendimento. Portanto, quando fui para uma sala de cinema assistir "O Som ao Redor", senti que havia ali não apenas "o dedo" do diretor Kléber Mendonça Filho: havia o cuidado meticuloso pelo "trabalho" bem acabado; havia o lado oculto do morador da cidade grande que se mistura com as pessoas anônimas que circulam ao seu redor; havia, enfim o cuidado de um diretor em provar que o cinema ainda é e será por muito tempo a forma de mostrar uma realidade que às vezes se esconde por trás da cortina - mas está presente quando o pano cai.
Tenho muito orgulho de ter trabalhado no mesmo jornal onde Kleber Mendonça Filho trabalhou. E terei ainda mais orgulho quando puder dizer que já fui chefe do primeiro brasileiro que ganhou o Oscar, o, que, senhores, não é pouca coisa, não…
Ivanildo Sampaio, jornalista