O sofrimento psicológico nas festas de final de ano
O que realmente nos sustenta não são metas perfeitas nem cobranças internas. O mais importante é nos sentirmos relevantes, amarmos e sermos amados.
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As festas de final de ano costumam ser associadas a alegria, reencontros e celebrações. No entanto, para muitas pessoas, esse período desperta também um conjunto de emoções ambivalentes, por vezes dolorosas. O fechamento de ciclo parece exigir de nós uma espécie de "prestação de contas existencial": tudo o que fizemos, o que não fizemos, o que gostaríamos de ter sido. É uma cobrança sutil, mas frequentemente injusta. Comparamos nossos processos internos às vitórias externas dos outros e esquecemos que o tempo humano é feito de curvas, pausas e desvios que nenhum calendário é capaz de capturar.
Somam-se a isso as ausências. As cadeiras vazias ficam mais visíveis quando a mesa se arruma. As vozes que não ouviremos mais ecoam silenciosamente na memória. Há o luto por quem partiu, mas há também o luto pelas relações que se transformaram ou se romperam: separações dolorosas, muitas vezes necessárias — mesmo quando não desejadas — que nos obrigam a reconstruir a própria identidade e a reorganizar a vida afetiva. Há ainda familiares e amigos que agora vivem longe, e cuja distância — física ou emocional — se torna mais sensível justamente quando todos parecem estar acompanhados. Para muitos, o fim de ano é o período em que a alma se recolhe, seca e silenciosa.
Mas é também nessa época que surgem possibilidades de renascimento. A virada do ano, por mais simbólica que seja, reacende a ideia de que novos rumos podem ser tomados, de que uma esperança real pode nascer depois de longos trechos de escuridão. A luz que surge após a madrugada mais fria sempre carrega uma poesia própria — frágil, mas persistente. E é nessa luz que reencontramos nossa capacidade humana de recomeçar.
Há igualmente um gesto fundamental que esse período inspira: a busca por "novos parentes". Muitas vezes, não são os laços de sangue que nos sustentam, mas os laços escolhidos — pessoas da comunidade, da vizinhança, da paróquia, do trabalho, ou mesmo, estranhos que reconhecemos por partilharem a mesma solidão. Nos saguões de hotel, nas salas de embarque, nas calçadas iluminadas ou à beira-mar, encontramos outros que, como nós, buscam apenas uma presença discreta, um respiro de humanidade. Esses vínculos inesperados podem se tornar uma família provisória — e, às vezes, mais verdadeira que muitas relações formais.
E há também aqueles que, de forma silenciosa, fazem parte da grande fraternidade invisível da noite de Natal: os verdadeiros heróis que estarão de plantão — nos hospitais, ambulâncias, carros de bombeiro, na segurança pública, na limpeza das ruas. Talvez você mesmo passe a noite segurando a mão de alguém em um leito de hospital, oferecendo presença a quem, de outra forma, estaria completamente só. Esses gestos anônimos não aparecem em fotos de festas, mas sustentam vidas inteiras.
Resgatar o sentido original do Natal — o nascimento de uma luz em meio à pobreza da noite, o extraordinário surgindo num cenário de simplicidade — pode nos ajudar a atravessar esse tempo com mais dignidade interior. Antes de ser uma festa de consumo, o Natal é um convite ao essencial: a lembrança de que as grandes transformações começam nas pequenas brechas da história, nas mãos que se estendem, nos vínculos que se formam mesmo sem parentesco formal.
No fim, aquilo que realmente nos sustenta não são metas perfeitas nem cobranças internas, mas o que parece trivial e é, na verdade, o mais importante: nos sentirmos relevantes, amarmos e sermos amados — às vezes por quem sempre esteve ao nosso lado, às vezes por quem encontramos pelo caminho e, por instantes, se torna parte da nossa história.
João Ricardo Mendes de Oliveira, membro da Academia Pernambucana de Ciências e Professor do Depto. de Neuropsiquiatria da UFPE