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O Agente Secreto - licença para existir

Realizar um filme com atores nordestinos, que falam como nós, que se parecem conosco, é como colocar um espelho à frente de quem nunca se viu…

Por Maria Tereza Paraguassú Martins Guerra Publicado em 18/12/2025 às 0:00 | Atualizado em 18/12/2025 às 23:35

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Este texto não terá aspas para destacar expressões regionais. Parto do princípio de que a maioria dos leitores as reconhecerá. Os demais sempre terão a liberdade de inferir o significado pelo contexto.

Em 2021, fui a São Paulo gravar aulas no estúdio de uma plataforma de ensino médico. Enquanto ajustava meu enquadramento, o operador de câmera perguntou de onde eu era. Respondi que era piauiense, mas que vivia no Recife.

Seus olhos ficaram distantes, como se buscassem algo além daquela sala. Disse que seu sonho era estudar cinema no Recife. Naquela altura, eu nada sabia sobre a cena cinematográfica pernambucana. Fiquei reflexiva diante daquela afirmação e me perguntei o que faria um amante do audiovisual almejar realizar sua formação no Recife e não no eixo Rio-São Paulo.

No intervalo das gravações, fui almoçar com uma colega piauiense que fazia especialização em São Paulo. Fomos a um daqueles estabelecimentos que ficam na dúvida entre ser padaria artesanal ou restaurante de culinária italiana. Sim, havia clientes com colete puffer azul, sinal de uma proximidade perigosa com a Faria Lima.

Uma jovem muito simpática nos trouxe o cardápio. Gostei da imagem de um prato e, como não havia a descrição, perguntei a ela do que se tratava a iguaria. Ela começou a descrevê-lo com riqueza de detalhes, como quem já havia ensaiado inúmeras vezes. Só que, a cada frase, interrompia o discurso para trocar palavras que havia usado previamente, julgando que os termos novos soariam mais familiares para nós. Fez isso umas quatro vezes. Ao terminar, disse quase ofegante:

— Desculpe. É que eu sou nordestina.

Sim. Ela pensou que éramos daquelas bandas e suprimiu de sua fala as palavras que poderiam soar como regionais. Olhei para minha colega, meio que tentando confirmar se realmente havíamos ouvido aquilo. Como ela morava em São Paulo, fez uma cara de "bem-vinda ao meu mundo". Voltei os olhos para a atendente e disse:

— Minha querida, caso você não tenha percebido, também somos nordestinas. Por favor, nunca mais peça desculpas por ser quem você é.

Ela suspirou, relaxou a postura e conversamos por breves minutos. Contou que era de Serra Talhada e que havia migrado para São Paulo há pouco tempo. Me pus a imaginar as coisas que ela ouviu naquele lugar e que a levaram a enxergar sua origem como algo passível de ser desculpado.

Meses depois, assisti a "Aquarius" e "O Som ao Redor". Só então, alcancei o que aquele operador de câmera tentou me dizer. Descobri que, além de Recife estar na vanguarda do cinema, os nordestinos eram dignos de aparecer em produções que retratavam o Nordeste.

Perdoem-me. Cresci vendo novelas ambientadas no Nordeste, nas quais atores sudestinos tinham dois trabalhos: o de interpretar o texto e o de incorporar um sotaque. Poucos conseguiam os dois feitos. O restante se perdia na fronteira entre a imitação e o arremedo, validando a falsa percepção de que os atores nordestinos não possuíam envergadura para atuar em grandes produções audiovisuais.

Lembro-me de assistir a uma minissérie e ter sérias dificuldades para entender o que uma atriz em específico falava. E olhe que, labutando com gente do interior do Piauí ao Recife, já ouvi todo tipo de prosa.

Corta para 2025. "O Agente Secreto" está em evidência. Só se fala em Recife, Wagner Moura, Tânia Maria e Kleber Mendonça Filho. Sabe quem mais está em alta? João Gomes: ganhou um Grammy Latino e foi consagrado como artista do ano no último Prêmio Multishow. Quer falar do digital? Bem, Whindersson Nunes tem "PIAUÍ" escrito na caixa dos peitos e dispensa maiores apresentações.

Acredito que não há uma explicação simplória para esse fenômeno, mas arrisco dizer que as redes sociais tiveram um papel decisivo nessa dispersão cultural.

Para o audiovisual tradicional, o nordestino só era crível no papel de humorista histriônico ou serviçal monossilábico. Não havia espaço para profundidade, complexidade ou camadas. Quando o direito de se expressar ficou na palma da mão de cada um, o jogo virou. Houve espaço para a inata capacidade do nordestino de se relacionar, comunicar, rir de si próprio, resistir, persistir, congregar e se espalhar. O algoritmo não resistiu e, hoje, muitos e grandes nomes do digital falam oxente.

Culturalmente falando, nunca foi tão fácil ser do Nordeste. Mas Kleber Mendonça Filho chegou a esse terreno quando tudo ainda era mato e o que escrevi até agora foi arrodeio para dizer o que vem a seguir.

Estava eu, com meu filho de três anos, pela enésima vez, assistindo ao curta-metragem "Patinho Feio", produzido pela Disney em 1939. Não sei se ter filhos faz de alguém uma pessoa melhor, mas certamente nos obriga a revisitar o abismo das certezas e o vale das convicções. Pelas tantas, finalmente percebi a mensagem mais importante desse conto: não basta ser, é preciso se enxergar e pertencer. Afinal, ele só se reconheceu como um cisne quando vislumbrou seu reflexo na água. Só enxergou sua beleza e altivez quando viu um bando de aves iguais a ele.

Não é de hoje que Kleber Mendonça Filho insiste em enquadrar, iluminar e captar o grito de sua gente com o microfone de sua sensibilidade. Realizar um filme com atores nordestinos, que falam como nós, que se parecem conosco, é como colocar um espelho à frente de quem nunca se viu… e ele vai além, está refletindo a imagem desse espelho para o mundo. Sem clichês, sem caricaturas, sem padrão estético. Com cores, rugas, suor e verdade.

Mas não faz isso como quem quer ou precisa se impor, como quem almeja ser aceito ou admirado. Faz isso com a naturalidade de quem escolheu o caminho da autenticidade. Encantar o mundo, com os pés fincados no Recife, a partir de seu próprio tecido, dentro de seus próprios termos, não é só um feito grandioso. É um ato de extrema coragem.

É a prova de que a criatividade indômita não só reflete o seu meio, mas gera identidade, pertencimento e visibilidade. Em um mundo de filtros, algoritmos, padrões e métricas, isso é mais que Absolute Cinema, é absolutamente revolucionário.

E se nosso brio melindrar alguém, pedirei licença à modéstia para dizer:

— Desculpe. É que eu sou nordestina.

Afinal, palavras são como roupas: moldam-se ao corpo de quem as veste e mudam de sentido conforme a ocasião.

Maria Tereza Paraguassú Martins Guerra, médica endocrinologista

 

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