O novo charlatanismo
Quando um jovem pretende melhorar a performance na academia e usa esteroides anabolizantes androgênicos, mostra que é corajoso ou desinformado
Clique aqui e escute a matéria
Sabendo que pode sofrer arritmia cardíaca e morte súbita estaria enquadrado na primeira hipótese, de outra forma seria vítima.
Fazendo uso, se perceber mudança no humor e comportamento agressivo ou criminal, não será surpresa. Se na sequência, em paralelo ao crescimento dos músculos, houver atrofia dos testículos, diminuição da espermatogênese e da fertilidade, será apenas uma consequência. Aspecto de forte, mas meio fraquinho e zangado. Quando o tendão romper, apresentar icterícia, hipertensão arterial e tumor no fígado ou, sendo mulher, surgirem acne, pelos na face, mudança da voz ou clitoromegalia, também estará previsto.
Se a prescrição for do colega de malhação cai na categoria de corajoso bobo, se for de colega com CRM, cabe ao Conselho julgar.
Seriam enquadrados na categoria de bobos de boa-fé os que são seduzidos por fórmulas manipuladas com múltiplos componentes entre fitoterápicos, suplementos e hormônios, embalados por um discurso delirante que parece cheio de segundas intenções. É fácil enganar pessoas de boa-fé dando lugar, por exemplo, a produtos com inúmeros pontos de venda na internet e incontáveis elogios como sendo analgésicos "naturais". Têm ampla aceitação, mas com uma simples consulta à Anvisa é possível observar que se encontram na condição de "busca e apreensão em todo território nacional, por falta de registro, produção em local incerto e não sabido". Poderia ser só uma desatenção com o trâmite burocrático básico para autorização de qualquer medicamento, mas seguindo na pesquisa e acessando a disciplina de farmacologia de uma universidade, o tal remédio "salvador" para as dores da artrose havia sido analisado e foi constatado que, além de substâncias desconhecidas, havia a presença de um analgésico comum, um anti-inflamatório não hormonal e um glicocorticoide. Assim estava explicada a "natural" piora da função renal, o descontrole da pressão arterial, da glicemia e o colapso vertebral da usuária.
Existem muitas fórmulas padronizadas à venda no território livre da internet, mas também são emitidas formulações individualizadas de composição e galênica dita magistral, prescritas por vezes em estranhas parcerias, com associações inacreditáveis e ousadas, manipuladas sem qualquer controle.
É do conhecimento geral que muitas substâncias produzem benefício imediato, garantindo satisfação no curto prazo, mas não são recomendadas porque cobram um preço alto depois e nem sempre o paciente se dá conta do dano tardio relacionado com a tal receita à margem da ciência médica.
Sempre existiu charlatão na história, antes simplórios, crentes na sua "medicina", tendo como público os mais humildes e desinformados. Agora são arrogantes, elegantes, elitizados, tendo como alvo os de maior poder aquisitivo. Com fácil acesso à informação e revistas médicas, como todo profissional hoje tem, seria impossível que não tivessem consciência de que estão atentando contra a saúde pública e a economia popular.
Com megadoses de vitaminas, oligoelementos, probióticos, hormônios, infusões antienvelhecimento, infiltrações sem limites, fitoterápicos de origem incerta voltados para lua e para conta bancária, com teses risíveis e discurso pseudocientífico do tipo "vamos melhorar sua imunidade", as prescrições dos charlatões passaram a ser a razão de muitas consultas clínicas solicitadas por suas vítimas. Desde um simples mal-estar provocado pela interação de seus produtos, a problemas sérios no fígado, no psiquismo, no metabolismo, no coração e até o comprometendo da imunidade que alegam melhorar. Isso sem falar no mal que fazem ao bolso do paciente, sabidamente a parte mais sensível do corpo humano.
Muito tem se falado do cangaço novo que está provocando pânico no país. Os bandos do charlatanismo novo estão se multiplicando sem que exista uma só volante mobilizada para o combate.
O estrago tem sido muito maior.
Sérgio Gondim, médico0