Arthur Carvalho: boemia não dá camisa a ninguém
Numa dessas manhãs, avistei duas moças tomando banho de mar. Eram tia e sobrinha, encostei, como dizem na Bahia, na sobrinha de 16, tendo eu 20

Fui veranear com meus pais em Boa Viagem, numa época em que Boa Viagem tinha trilhos e por eles trafegavam bondes.
O local de paquera da moda era defronte do famoso e novo Edifício Acaiaca, pela manhã, e do Footing, ao cair da tarde, quando os automóveis podiam estacionar no meio-fio. O dono de um Citroen preto, faturava todas as meninas bonitas.
O amor e a boemia
Numa dessas manhãs, avistei duas moças tomando banho de mar. Eram tia e sobrinha, encostei, como dizem na Bahia, na sobrinha de 16 anos, tendo eu 20, começamos a namorar e nos apaixonamos perdidamente para sempre (gostou, Og?).
Mas é bom frisar, que a casa onde veraneávamos, era perto do Pina, à época, lotado de bares, cabarés e pousadas de mulheres. Ou seja, um paraíso para rapazes e boêmios.
E eu não trocava boêmia por nada neste mundo. Tanto que uma vez minha sogra me perguntou se eu morava em Boa Viagem ou no Pina, pensando que me ofendia.
Respondi com uma gracinha que me pareceu oportuno, espirituosa e inteligente, e que hoje, meus fios de cabelos grisalhos desaprovam, es que a pergunta foi feita por uma senhora piedosa, de família tradicional.
“Resido em Boa Viagem e sou domiciliado no Pina”. Mas eu não entendia era por que meu sogro gostava de mim, tomando uísque e jogando pelada comigo no Country, e minha sogra não gostava...
O preço da boemia
O estopim viria numa radiosa e clara manhã de verão. Eu atravessara a noite, entrando pela madrugada, acompanhado dos amigos Ricardo de Paula Lopes, Artur Coutinho e Waldemar Machado, ouvindo Silvio Caldas e Isaurinha Garcia dando uma canja na pequena e charmosa churrascaria Alvorada, de Djalma Procópio, no coração do Pina.
Nos primeiros raios do sol, Ricardo e eu, deixávamos a Peixaria Máxime, com duas amigas, e depois, ao tentarmos atravessar a Avenida Herculano Bandeira, um Bel Air azul freou mais adiante e deu ré.
No banco traseiro uma jovem e linda passageira, vestindo farda do Colégio, abaixou o vidro e gritou pra mim: “Bem que mamãe tem razão! À noite a gente se encontra.
Essa é a vidinha que você quer!” O vidro subiu e o carro partiu. Fingi não ser comigo. A mulher ao meu lado perguntou: “Quem é essa dondoca?” “Nunca vi na minha vida! Balbuciei atônito e cinicamente.”
A verdade é que perdi um grande amor para gozação de Ricardo, Artur e Waldemar. Um samba de grande sucesso já dizia que boemia não dá camisa a ninguém. Mesmo sendo um homem de moral, foi difícil dar a volta por cima. Boemia não dá camisa a ninguém.
Arthur Carvalho – União Brasileira de Escritores - PE - UBE
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